Dá a Surpresa de Ser
Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.
Seus seios altos parecem
(Se ela tivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem Ter que haver madrugada.
E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.
Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como ?
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
ALEISTER CROWLEY FOI ASSASSINADO?
«ALEISTER CROWLEY FOI ASSASSINADO?
Um novo aspecto do caso da "Boca do Inferno".
Deve estar ainda na memória de todos, porque foi largamente tratado no
Diário de Notícias
, e ainda mais largamente, com ampla reportagem fotográfica, no
Notícias Ilustrado
, o estranho caso do desaparecimento em Portugal de
Aleister Crowley, o poeta, ocultista e "homem de mistério" inglês, que
se sumiu por completo, deixando na Boca do Inferno, onde foi achada em
25 de Setembro, uma carta em linguagem misteriosa, de onde parecia
depreender se um suicídio.
Mais tarde surgiu, não entre o grande público, mas nos meios
restritíssimos dos cafés, a hipótese de uma "blague", cuja base parece
ter sido apenas a circunstância insuficiente de o achador da carta ser
jornalista e amigo pessoal de Fernando Pessoa, o indivíduo que mais
lidara com Crowley aqui em Portugal. Se o suicídio nunca deveras se
provou (só o aparecimento do cadáver, como bem pensou a nossa Polícia, o
poderia provar), também ninguém pôde provar que houvesse "blague". E o
caso, em boa verdade, ficou sempre misterioso.
Começou agora a saber-se, ou a constar, mais coisas, vindas de
fora de Portugal, e o caso, que parecia em princípio não ter outra
explicação senão um suicídio ou uma "blague", tende a assumir aspectos
acentuadamente mais sinistros.
Há já tempo que se sabe, por exemplo, que logo que
constou no estrangeiro o desaparecimento de Crowley, um agente da
polícia inglesa apareceu na redacção do
Détective
, de Paris, a comprar um exemplar de um número de
Maio de 1929, onde vinha um extenso artigo sobre Crowley e sobre a sua
actividade de espionagem (nunca se soube bem a favor de quem), durante a
Grande Guerra. E o que é certo é que o
Détective
, logo que soube que estava em Paris o sr. Ferreira
Gomes, achador da carta na Boca do Inferno, se apressou a entrevistá-lo
dedicando uma boa parte do seu número de 30 de Outubro a um extenso
relato do acontecimento.
Agora constou em Lisboa, sem dúvida por uma daquelas
inconfidências que seguem, como sombras, o passo de todos os segredos,
que a polícia inglesa tinha chegado à conclusão de que Crowley havia
sido assassinado.
Ora nós sabíamos que tinha sido o sr. Fernando Pessoa quem tinha
estado em contacto mais constante com Crowley, aquando da estada dele em
Portugal, e sabíamos também por lho termos ouvido contar que estava em
contacto com entidades estrangeiras, amigos e conhecidos de Crowley, que
se lhe dirigiram, pedindo informações logo que o desaparecimento
constou nos jornais lá de fora. Concluímos, portanto, que, se alguém
soubesse alguma coisa do assunto, seria o antigo director do "Orpheu".
E, sem medo de "blagues" a ele nos dirigimos.
— Não — diz-nos Fernando Pessoa — não há o que v. chama
"notícias" do Crowley. Quer o secretário dele, que está em Inglaterra,
quer um íntimo amigo dele, que está na Alemanha, continuam a revelar-se,
quando me escrevem, desorientados com o caso. Parecem, na verdade, não
estar absolutamente convencidos do suicídio, mas também parecem não
saber de que é que hão-de estar convencidos. Do que não tenho dúvidas,
pelo tom das cartas, é que, se Crowley está vivo algures, um e outro (e
são os seus mais íntimos), lhe ignoram por completo o paradeiro.
— E você, o que pensa? — Não penso, que é o mais cómodo. A
princípio, ao verificar a absoluta autenticidade da carta e a estranheza
da sua data e assinatura ("Sol em Balança" e "Tu Li Yu",
respectivamente), acreditei em absoluto no suicídio; claramente o disse,
porque o acreditava, na Investigação Criminal. Hoje reconheço falhas
lógicas no argumento que me serviu para essa conclusão. A data
astrológica, provando que a carta foi escrita depois das 6 horas da
tarde do dia 23 de Setembro, não prova, na verdade, que Crowley se
houvesse suicidado em seguida; e o facto, que me pareceu sinistro, de
Crowley assinar com o nome chinês, de que ele uma vez me disse ser "uma
das suas incarnações anteriores", não prova nada, pois ele pode bem
ter-me mentido, com um propósito antecipado e sabendo as conclusões que
eu viria a tirar, ao dar-me, aliás no acaso de uma conversa, essa
informação sobre o seu assado longínquo.
— Então?...
— Então, nada. Também me custa, não sei porquê, acreditar numa
"blague". De duas coisas é que eu tenho a certeza. A primeira é de que
realmente vi o Crowley no dia 24 de Setembro, quando a Polícia
Internacional diz que ele já tinha passado a fronteira. A segunda é que
Crowley, não sei com que fim, me ocultou o regresso de Miss Jaeger, em
19 de Setembro. Só pela Polícia e por determinadas entidades
estrangeiras é que eu depois vim a saber que ele não só não continuava a
ignorar o seu paradeiro, mas até tinha ido com ela ao consulado, onde
ela foi buscar auxílio para a sua viagem de regresso à Alemanha.
— E ela está na Alemanha?
— Está. Ela, afinal, nunca tinha feito mistério da sua partida.
Deixou aqui, na Cook e em outros lugares, o seu endereço na Alemanha,
para lhe reexpedirem para lá quaisquer cartas que viessem para ela. E já
me escreveu duas vezes de lá. Também não parece saber o que é feito do
Crowley, a quem, aliás, chama "bandido" numa das cartas.
— É verdade! O que é isso que consta da polícia inglesa? — E,
rapidamente, indicámos os boatos que corriam sobre conclusões trágicas
da investigação daquela polícia.
Fernando Pessoa hesita um pouco, mas, depois, diz: — Olhe: isso,
assim nitidamente posto, não me tinha constado, mas também não me
espanta. Sei com absoluta certeza que estiveram aqui dois agentes
investigadores ingleses a tratar do caso Crowley. Logo no dia 29 de
Setembro me apareceu aqui, neste escritório, um deles; veio com um
disfarce verbal, transparente, tanto que não só eu, mas um amigo meu,
inglês, que por acaso aqui estava, imediatamente desconfiámos do
"professor de línguas" que nos havia aparecido. Mais tarde soube, de
óptima fonte, que este não era um polícia oficial, mas um investigador
particular, que aqui estava tratando de outro assunto, e recebeu
instruções especiais para tratar deste. Isto explica o seu aparecimento
imediato às notícias dos jornais. E também soube depois, por um lapso
verbal de um inglês meu amigo, e neste caso informador involuntário, que
mais tarde viera aqui um outro indivíduo esse sem dúvida oficial a
investigar o mesmo assunto.
— E v. sabe alguma coisa das conclusões a que chegaram esses investigadores?
— De oficial, nada; nem tenho, excepto por dedução, a
certeza da existência dele, que aliás relaciono com essa história do
outro agente oficial que visitou o
Détective
em Paris. Do "professor de línguas" não só tenho a
certeza visual e lógica, mas consegui saber, por favor especial, três
resultados das suas investigações.
Sei que ele conseguiu "levar a sua investigação a bom fim", ou
que, pelo menos, supõe que o fez; sei que nem admite a hipótese do
suicídio nem a hipótese da "blague"; e sei que, desde o primeiro dia da
investigação, me "riscou do caso", com o fundamento, que me deixa
perplexo, de que entre Crowley e os jornais havia um elemento de ligação
"muito mais íntimo e valioso" do que eu.
— Mas uma coisa que não é suicídio nem "blague", o que é que pode ser senão o assassínio?
— É, com efeito, o que ocorre; e é por isso que eu lhe disse que,
embora sejam novos para mim, não me espantam os boatos sinistros que v.
me contou. Posso admitir que quisessem assassinar o Crowley, mas
admiti-lo-ia com mais facilidade se pudesse compreender que um
indivíduo, antes de ser assassinado, se desse ao trabalho de escrever
uma carta (incontestavelmente autentica), dizendo que se suicidava. É
ser boa vítima demais...
De repente, Fernando Pessoa sorri, leva a mão à carteira, e tira dela um recorte de jornal.
— Olhe, já que fala de assassínio, vou-lhe ler um documento curioso. Isto é um recorte do diário inglês
Oxford Mail
, de 15 de Outubro; é de notar que Crowley era muito
conhecido e admirado em Oxford, embora seja Cambridge a sua
universidade. O título do artigo é "Aleister Crowley assassinado",
"Revelações Espíritas a um Médium de Londres", "Empurrado dos Rochedos
Abaixo". É um telegrama ou telefonema de Londres, do correspondente do
jornal. É do próprio dia, e diz assim: "Num quarto pequeno e mal
iluminado em Bloomsbury, a noite passada, o sr. A. V. Peters, médium
londrino, entrou em transe para se obterem algumas indicações sobre o
paradeiro do sr. Aleister Crowley, escritor e mago. Do sr. Crowley, cuja
projectada conferência sobre "Um Mago Medieval" fora proibida em
Oxford, em Fevereiro, não tem havido notícias desde que uma carta dele
se encontrou nos rochedos chamados "Boca do Inferno", a 23 milhas de
Lisboa, há quinze dias.
O sr. Peters declarou que, durante o transe, lhe tinha sido
indicado que o sr. Crowley estava morto, e que "tinha sido empurrado dos
rochedos abaixo por um agente da Igreja Católica Romana". "Os católicos
já anteriormente tinham atentado contra a vida do sr. Crowley", disse o
sr. Peters, "e ele estava à espera de ser atacado". Descreveu o lugar
como sendo "redondo" como "uma cratera de vulcão", e o sr. Peters
acrescentou que "era nas montanhas, ao pé de água". Grande parte da
sessão foi ocupada em obter detalhes pessoais sobre o aspecto, ocupações
e saúde do sr. Crowley, "para fins de verificação".
— E o que se conclui disso? — perguntámos.
— Que eu saiba, nada. Pessoalmente, nada tenho contra nem a favor das
visões desta ordem. Mas é curioso, não é, depois dos boatos que me
trouxe e das conclusões a que ninguém chegou?»
11-1930
O Mistério da Boca do Inferno - O encontro entre o Poeta Fernando Pessoa e o Mago Aleister Crowley
. Victor Belém. Lisboa. Casa Fernando Pessoa, 1995.
- .
Entrevista in
Girasol
. Lisboa: Nov. 1930.
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AQUI