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Nada-Ninguém

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in | Posted on 18:40




Não estreitava relações com nada-ninguém, conservando-me na obscuridade. Sei que os piores dias de minha vida foram todos. Esborralhas congênitas: dentes ainda na juvenescência saíram dos quícios dos eixos; apodrecimento precoce - perdi o riso.

 Evandro Affonso Ferreira in: Os piores dias de minha vida foram todos. Ed. Record, p. 15.

Pitágoras

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , , | Posted on 23:52



Ao ver estas fotografias, de Hossein Zare,  lembrei-me de um livro que tinha na prateleira, de 2005, lançado pela Editora Esquilo, cujo titulo é Pitágoras. Fui então, reaver umas linhas do livro e transcrevê-las aqui.

« Pitágoras respondeu num tom seco:
- A sua fonte é o Absoluto, o Silêncio anterior a todas as formas, a todas as sucessões de factos, ou seja, anterior aos números. Um «nada» que, ao manifestar-se, se transforma no Uno. Falo disso, mas deveria calar-me, porque este conhecimento não só é secreto como não pode ser transmitido senão através do poder da inspiração silente. (...)

- Para se experimentar a si mesmo, o Uno, a mónada (imaginemo-lo como um ponto de luz), deslocou-se deixando um rasto no espaço. O seu movimento formou uma linha luminosa que, num dado momento, se quebrou. Desta quebra surgiu o Dois, a diáda. Estas duas linhas luminosas voltaram a fracturar-se infinitas vezes. Depois, as linhas deslocaram-se, formando planos de luz e, novamente, deslocaram-se os planos criando volumes ou universos configurados por pontos de luz.
«Nós habitamos nointerior de um desses universos, repleto de estrelas. Compreender isso permite-nos deduzir que tudo o que existe faz parte de um mesmo Ser, uma vez que tudo tem como origem um único ponto: O Uno, uma fonte de luz surgida do Silêncio, do Vazio...
«Depois da fractura do Uno, surgiu a diversificação, ou seja, os números, o que equivale a dizer que irrompeu tudo o que deveria existir: mundos e seres em expansão, multiplicando-se entre si e vagueando pelo cosmos, esquecidos da sua natureza original. (...)

(...) Certamente - frisou Pitágoras, - o meu mestre Anaximandro foi o primeiro homem capaz de prever os eclipses.
(...) Nesse momento, Pitágoras recordou Anaximandro, que nunca se conformara com a explicação mítica dos eclipses. Pensou também em Maati que, como sacerdotisa da Bastet, lhe explicara de que modo, durante cada eclipse, a serpente cósmica desejava devorar o Sol, mas era vencida e morta por Bastet, a gata celeste.  Pitágoras quis conhecer a opinião de Surba acerca esses conceitos míticos.
- A maioria das pessoas pensa que os eclipses se produzem por acção de uma serpente celeste. Não seria melhor explicar-lhes claramente a natureza dos ciclos de Saros dos quais me falas? - inquiriu.

Benigno Morilla  in  Pitágoras

Fotografias Hossein Zare

Menina Quebrada

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , | Posted on 06:37



A Menina Quebrada

O que eu poderia dizer a você, Catarina? A verdade? A verdade você já sabia, você tinha acabado de descobrir. As pessoas quebram. Até as meninas quebram. E, se as meninas quebram, você também pode quebrar. E vai, Catarina. Vai quebrar. Talvez não a perna, mas outras partes de você. Membros invisíveis podem fraturar em tantos pedaços quanto uma perna ou um braço. E doer muito mais. E doem mais quando são outros que quebram você, às vezes pelas suas costas, em outras fazendo um afago, em geral contando mentiras ou inventando verdades. Gente cheia de medo, Catarina, que tem tanto pavor de quebrar, que quebram outros para manter a ilusão de que são indestrutíveis e podem controlar o curso da vida.

E, Catarina, você tem toda a razão de duvidar. Depois de quebrar, nunca mais voltamos a ser como antes. Haverá sempre uma marca que será tão você quanto o tanto de você que ainda não quebrou. Viver, Catarina, é rearranjar nossos cacos e dar sentido aos nossos pedaços, os novos e os velhos, já que não existe a possibilidade de colar o que foi quebrado e continuar como era antes. E isso é mais difícil do que aprender a andar e a falar. Isso é mais difícil do que qualquer uma das grandes aventuras contadas em livros e filmes. Isso é mais difícil do que qualquer outra coisa que você fará. 

 Ser forte, Catarina, não é quebrar os outros, mas saber-se quebrado.É ser capaz de cuidar de seus barcos de papel – e também dos barcos dos outros – não como uma criança que os imagina poderosos, de aço. Mas sabendo que são de papel e que podem afundar de repente.

Essa conversa, Catarina, está apenas adiada. Talvez, daqui a alguns anos, você precise me perguntar como se faz para viver quebrada. Ou por que vale a pena viver, mesmo se sabendo quebrada.

Para ler a totalidade do texto e na sua ordem, clique aqui Eliane Brum


Nota: Menina Casulo, obrigada por esta Pérola. Preciosa.

Como é que se Esquece Alguém que se Ama?

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , | Posted on 09:15

Gostava de ter escrito este texto.  O sentimento na escrita.

»O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar.«

Como é que se Esquece Alguém que se Ama? 

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'

José Saramago - Textos Vários

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , , , | Posted on 17:43

O Mercado Pode Tornar-se uma Ditadura 

A diferença (entre a ditadura e o capitalismo) é que não é a ditadura como nós conhecemos. É o que eu chamo de «capitalismo autoritário». A ditadura tinha cara, e nós dizíamos é aquela, ou aqueles militares, o Hitler, o Franco, o Pinochet, mas agora não tem cara. E como não tem cara não sabemos contra quem lutar. Não há contra quem lutar. O mercado não tem cara, só tem nome. Está em toda a parte e não podemos identificá-lo, dizer «és tu». Mesmo as pessoas que lutaram contra a ditadura, entrando na democracia acham que não têm mais que lutar. E os problemas estão todos aí. O mercado pode tornar-se uma ditadura.

José Saramago, in 'O Globo (1999)'



A Globalização é uma Nova Forma de Totalistarismo 

A globalização económica é compatível com os direitos humanos? Temos de fazer esta pergunta a nós próprios e ver que a resposta é que ou há globalização ou há direitos, por mais que os poderes tenham a hipocrisia de dizer que a globalização favorece os direitos humanos, quando o que faz é fabricar excluídos. A globalização é simplesmente uma nova forma de totalitarismo que não tem de chegar sempre com uma camisa azul, castanha ou negra e com o braço erguido; tem muitas caras e a globalização é uma delas. 

José Saramago, in 'Turia (2001)'


 Estamos a construir uma sociedade de egoístas. 

Se a ti te dizem que o que importa é o que compras, e segundo o que compras têm mais ou menos consideração por ti, então convertes-te num ser que não pensa senão em satisfazer os seus gostos, os seus desejos e nada mais. Não existe em nenhuma faculdade uma disciplina do egoísmo, mas não é preciso, é a própria experiência social que nos vai fazendo assim. Ao longo da História as igrejas e as catedrais eram os lugares onde se procurava um valor espiritual determinado. Agora os valores adquirem-se nos centros comerciais. São as catedrais do nosso tempo.

José Saramago, in 'El Mundo (2000)'


A Europa é um Comboio Disparado e sem Freios 

Foi a falta de solidariedade que fez na Europa 18 milhões de desempregados, ou são eles tão-somente o efeito mais visível da crise de um sistema para o qual as pessoas não passam de produtores a todo o momento dispensáveis e de consumidores obrigados a consumir mais do que necessitam? A Europa, estimulada a viver na irresponsabilidade, é um comboio disparado, sem freios, onde uns passageiros se divertem e os restantes sonham com isso. Ao longo da linha vão-se sucedendo os sinais de alarme, mas nenhum dos condutores pergunta aos outros e a si mesmo: «Aonde vamos?»

José Saramago, in 'Cadernos de Lanzarote (1993)'


 O desbarato mais absurdo não é o dos bens de consumo, mas o da humanidade: milhões e milhões de seres humanos nasceram para ser trucidados pela História, milhões e milhões de pessoas que não possuíam mais do que as suas simples vidas. De pouco ela lhes iria servir, mas nunca faltou quem de tais miuçalhas tivesse sabido aproveitar-se. A fraqueza alimenta a força para que a força esmague a fraqueza.

José Saramago, in 'Cadernos de Lanzarote (1994)'


A Estupidez e a Maldade Humana 

Vista à distância, a humanidade é uma coisa muito bonita, com uma larga e suculenta história, muita literatura, muita arte, filosofias e religiões em barda, para todos os apetites, ciência que é um regalo, desenvolvimento que não se sabe aonde vai parar, enfim, o Criador tem todas as razões para estar satisfeito e orgulhoso da imaginação de que a si mesmo se dotou. Qualquer observador imparcial reconheceria que nenhum deus de outra galáxia teria feito melhor. Porém, se a olharmos de perto, a humanidade (tu, ele, nós, vós, eles, eu) é, com perdão da grosseira palavra, uma merda. Sim, estou a pensar nos mortos do Ruanda, de Angola, da Bósnia, do Curdistão, do Sudão, do Brasil, de toda a parte, montanhas de mortos, mortos de fome, mortos de miséria, mortos fuzilados, degolados, queimados, estraçalhados, mortos, mortos, mortos. Quantos milhões de pessoas terão acabado assim neste maldito século que está prestes a acabar? (Digo maldito, e foi nele que nasci e vivo...) Por favor, alguém que me faça estas contas, dêem-me um número que sirva para medir, só aproximadamente, bem o sei, a estupidez e a maldade humana. E, já que estão com a mão na calculadora, não se esqueçam de incluir na contagem um homem de 27 anos, de profissão jogador de futebol, chamado Andrés Escobar, colombiano, assassinado a tiro e a sangue-frio, na célebre cidade de Medellín, por ter metido um golo na sua própria baliza durante um jogo do campeonato do mundo... Sem dúvida, tinha razão o Álvaro de Campos: «Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer». Sem dúvida, mas não desta maneira.

José Saramago, in 'Cadernos de Lanzarote (1994)'

Clarice Lispector

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , , , , | Posted on 12:31

 Clarice Lispector


ISTO NÃO É UM LAMENTO, é um grito de ave de rapina. Irisada e intranqüila.

Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto — e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. 

Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. 

Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras — quais? talvez as diga. 

Escrever é uma pedra lançada no poço fundo.

Escrevo muito simples e muito nu. Por isso fere.

Eu escrevo para nada e para ninguém. Se alguém me ler será por conta própria e auto-risco. 

Existem leis que regem a comunicação.  A impessoalidade é uma condição.

Tudo o que aqui escrevo é forjado no meu silêncio e na penumbra. Vejo pouco, ouço quase nada.(...) Minha nascente é obscura.

A vida das mulheres

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , | Posted on 14:54



A vida das mulheres

António Lobo Antunes



Porque razão nós as mulheres não somos felizes, quer dizer até podemos ser felizes mas não somos felizes felizes e muito menos felizes felizes felizes, também não somos infelizes, é um estado de alma assim assim que o facto de termos uma família vai compondo, uma família, a casa paga, os electrodomésticos pagos, tudo pago




O que me aconteceu que não me apetece fazer amor com o meu marido? As minhas amigas garantem que ao fim de cinco anos de casada é inevitável, a ideia vai deixando de exaltar-nos, até se continua a ter prazer mas não é a mesma coisa, se em vez do meu marido fosse outro qualquer era igual, o tempo mata o entusiasmo e o desejo mas, em compensação, aparecem outras alegrias, sobretudo o facto de ter uma família, uma certa paz, uma rotina no fim de contas agradável, um sentimento de estar protegida, de segurança, de estabilidade embora com os homens nunca se saiba, tão infantis, tão à mercê de entusiasmos, caprichos, qualquer par de pernas os transtorna, as raparigas mais novas põem-nos a ferver mas a segurança e a estabilidade, ainda que precárias às vezes, existem de facto, claro que há separações, divórcios, etc., porém a estabilidade e a segurança, uma certa estabilidade e uma certa segurança existem de facto e depois, uma vez a meio da semana e outra ao fim de semana, lá vem a mãozinha, a perna, o corpo todo, é agradável sem ser muito bom, aquela paz do depois sossega a gente e, para além do sossego, o alívio de saber que por uns dias teremos descanso, jantares com amigos, a televisão, o jornal, a vida é isto, quanto ao fazer amor umas ocasiões é agradável, outras nem tanto, a partir de um certo tempo em comum as coisas tendem a passar-se mais ou menos da mesma maneira, não há grandes variações, não há acrobacias, acabam e levantam-se logo com a desculpa do chichi, do copo de água, das crianças que podem ouvir

(ouvir o quê se acabou?)

parecem aborrecidos connosco, parecem fartos, não respondem, resmungam, não conversam, ficam calados no sofá ou telefonam a um colega do emprego para combinar um jantar a quatro, há quantos meses não jantamos sozinhos, há quantos meses não me beija sem segundas intenções, só por beijar, não me diz nada terno, não me pega na mão, na semana passada perguntei-lhe

- Gostas de mim?

respondeu

- Estou aqui não estou?

parecia que admirado com a pergunta, se ponho um vestido novo anima-se um bocado porque me tornei outra e é a outra que lhe interessa, não eu, a mesma reacção com brincos grandes, mais maquilhagem, saltos altos, a quem é que apetece fazer amor afinal, a mim, a ele, é evidente que não me interessam outros, nem olho, o actor de uma série de televisão mas isso um entusiasmo vago, um

- Como seria se

que conforme aparece se esfuma, quando vamos no carro já me aconteceu pensar no actor, uma espécie de pergunta, porque não chega a pergunta

- Como se seria se

e passa, o meu marido não gosta de conversar enquanto conduz ele que ao princípio conversava imenso

- Não me desconcentres que só temos seguro contra terceiros pergunto-me se o actor me daria atenção ou ao cabo de cinco anos o mesmo, suponho que o mesmo ou antes tenho a certeza que o mesmo, pelo que oiço não há-de haver muitas diferenças entre eles, porque razão nós as mulheres não somos felizes, quer dizer até podemos ser felizes mas não somos felizes felizes e muito menos felizes felizes felizes, também não somos infelizes, é um estado de alma assim assim que o facto de termos uma família vai compondo, uma família, a casa paga, os electrodomésticos pagos, tudo pago, chegarmos juntos para comer nos meus pais que nem sonham que não me apetece fazer amor com o meu marido, até continuo a ter prazer mas não é a mesma coisa, nem pensam nisso em relação a mim, detestam pensar nisso em relação a mim porque continuo a ser menina para eles, se a minha mãe

- Está tudo bem entre vocês? respondo logo que está tudo bem, não se preocupe, nunca esteve tão bem e depois os miúdos graças a Deus são óptimos, tive imensa sorte, sabia, não trocava o que tenho nem por uma mina de ouro, a minha mãe, desconfiada

(aquele instinto das mulheres que ela, apesar dos setenta e três anos, ainda não perdeu)

- Palavra de honra?

enquanto o meu pai e o meu marido jogam às damas e nós na cozinha, em voz baixa, vejo-os daqui debruçados para o tabuleiro, no caso de perguntar à minha mãe e não pergunto, é evidente

- Está tudo bem entre vocês?

ela de súbito quieta, da minha idade e quieta, idêntica a mim

- Está tudo bem, não te preocupes

e não está tudo bem pois não, diga lá, nunca esteve tudo bem e agora é tarde para recomeçar a vida, filha, repara no meu corpo, no meu cabelo, nas minhas pernas, na minha cara, na minha pele, repara como envelheci, nem acredito quando me vejo ao espelho, ao nasceres pensei

- Acabou-se

e desisti, percebes, desisti, mas aparte ter desistido tudo bem, viste o actor daquela série da televisão, filha, talvez não acredites mas já me aconteceu que, não ligues, era uma conversa parva, o que é que me deu hoje, há alturas em que me torno uma adolescente tonta, que ridículo, uma adolescente de setenta e tal anos, que palermice, há alturas, lá ia eu continuar com a conversa, o que me preocupa é que tu estejas bem, a única coisa na vida que me preocupa é que tu estejas bem, o resto não tem importância, que tu estejas bem por mim que não espero seja o que for, passou muito tempo, entendes, demasiado tempo e não há tempo para mim hoje em dia, chega acontecer, vê só a estupidez, chega a acontecer imaginar-me morta e não é inteiramente desagradável, calcula, porque, pensando um bocadinho nisso, desde que me tornei mulher quando é que foi bom viver?

 Para continuar a ler... Via Visão

Crónica D´Orelhudos - Luís Novais

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , , , , | Posted on 20:21

PREFÁCIO do Livro:   
Crónica D'orelhudos - Luís Novais
(livro gratuito)

(por Pedro Barroso)


A fábula da gestão difícil é um mito já abordado por todos os autores do mundo.
Aos olhos autocráticos dos maiores, gerir é a arte difícil da conveniência. Da sua conveniência. E aparentemente, conforme defendem, trata-se de um equilíbrio só ao alcance de predestinados, dotados de armas excepcionais de inteligência, poder, sagacidade.
Aparentemente resulta.
Se os profissionais do poder invocarem essa extrema selectividade, ninguém de jeito se candidata a tal árdua e desgastante tarefa. E eles, almas boas, esmoleres e amigas do próximo, nesse caso, e no interesse superior da nação, então sim, se sacrificarão no mais peregrino e último interesse pátrio.
De facto, sempre me pergunto, como homem de dúvidas e desejos de justiça maior, porque raio não vejo nos cargos de decisão… decisores de jeito; gente lúcida, equilibrada, voluntariosa e desprendida, de pensamento livre e julgamento harmonioso.
A resposta é simples.
Esses seres superiores de entendimento abominam as hipocrisias e moléstias do mando e dedicam-se ao crescimento real do Mundo, das Artes e da Vida.
Utilizam o papel do dia para a criação.
Usam o luar das noites para o sonho.
Usam o amor como arma de ternura.
Usam a poesia como acto de suportação do cinzentismo e usam a viagem, a descoberta de civilizações, culturas e pessoas como forma eminente e sempre dialéctica do conhecimento.
Gente do sonho e da paisagem; gente do trato e da descoberta, há muito que aprendeu a ignorar a perfídia dos jogos florentinos.
E, de resto, o poder que ambiciona reside noutra matriz, outra dimensão, outra qualidade.
Até porque governar, - ao contrário do que tanto argumentam os esbirros da prepotência - é um decorrer natural do convívio humano entre gente de bem.
Os mais primitivos formatos descobertos de fórmulas regímentais de vida em sociedade são de facto, por vezes, de uma surpreendente facilidade e decorrência na sua candura e clareza de discurso. São códigos intuitivos na sua decisão moral; são apaziguadores no trato; são corteses no convívio e equilibrados na regulamentação.
Governar no espaço público é sobretudo um acto de atenção e providência.
As sociedades primitivas, apesar da crueza de seus costumes e da rudeza das suas vidas, tinham sentidos de gestão da respublica normalmente claros e precisos.
Havia normas Incontestadas na prática aplicada - fosse ela a transumância dos rebanhos, a gestão dos baldios, o mutualismo ou o forno colectivo da aldeia.
Eram normas de traditio. Mas eram sempre rebatíveis em conselho de cidadãos maiores, caso fosse de bom senso tornar a equacionar o anteriormente decidido.
Tratava-se de conselhos, assembleias de homens bons, senados locais, ou gerúsias, onde se não entrava por truque publicitário ou dispendiosa campanha televisiva, mas sim por mérito próprio, maturidade evidente, sabedoria, ou valor reconhecido.
Fazer crer que estes são processos ultrapassados de gerir, quando muito, velhos e recônditos lugarejos atrasados no tempo, é a velha fórmula de ridicularizar o campo ante a cidade, por falta de progresso e horizonte. Essa sempre foi e será uma falsa questão.
Claro que a oferta na cidade será sempre superior em lojas, produtos, alternativas, oferta cultural, sedução vária. Mas isso não obsta a que no campo se viva com uma qualidade natural,
de espaço e de tempo muito superior. O problema não é de facto, esse.
Estavas tu, linda Inês, posta em sossego, apetece citar.
Eis senão quando uma invasão de colarinhos inteligentes invadiu a nossa vida.
Mas os cavalos de Tróia inseminados de venenos vários, relacionados com a frivolidade e o desmando, não determinam mais felicidade. Fica provado.
E os mais subsequentes e ocultos vapores que de tal organização emana, esses, transformam o poder em cupidez, nepotismo, vaidade, roubo orçamental crónico, volúpia de mandar, abuso e no último lugar da hierarquia, conduzem normalmente a um certo autismo comportamental de etiologia narcísica e difícil erradicação clínica.
Mais que o sistema corrompido complexo e mal-são que se monta, pervertendo a pureza inicial dos agregados humanos, a societas convertida em contributiva, é normalmente governada por um sistema que se convence mesmo da sua infalibilidade, da inteligência imensa de tudo o que implica e decide e esta convencidíssimo de que tem inevitavelmente, toda a razão.
O poder rodeia-se de vários fusíveis de poder, para ser mais distantemente poder, mais impune, mais secreto, mais vigilante, mais informado.
O poder não pode dormir com medo de deixar de ser poder na manhã seguinte.
Para isso instituiu uma teia de regras, mais ou menos kafkiana, de deveres absurdos, papéis em triplicado, instituições e normas complexas, onde o cidadão incauto se perde e transforma, supostamente no seu interesse, mas sem que, estranhamente, isso lhe devolva ou potencie qualquer alegria suplementar de viver.
E o poder isola quem o critica; persegue e mata quem o incomode. Pois não gosta de criatividade, nem de quem lhe questione a proveniência e a implantação.
O poder não gosta de ser interrompido.
O poder não gosta de quem faça perguntas. O poder não quer o sentido crítico.
O poder chega a defender o analfabetismo perante a ameaça do conhecimento.
O poder sofre sempre que se avançam alternativas democráticas, de resolução directa e delegação de autoridade. Mesmo parcelar, regional e inocente.
O poder não atrai os homens verdadeiramente probos, pois esses estão ocupados a construir o mundo da verdade e das ideias.
Luís Novais construiu este fabuloso romance, “Crónica d’Orelhudos”, adoptando um registo maravilhoso de sabor arcaico, extremamente bem escrito e superiormente imaginado, para nos explicar, com pormenor e ironia, os descaminhos da prepotência e da tirania.
Por contraste com os caminhos possíveis da gentileza e do saber.
O sentido político desta obra é fortíssimo e torna-se um libelo de denúncia e indignação cívica.
Assim mais gente houvesse que o entendesse, pois os que o lêem até final, esses, há muito que escolheram o seu campo; e estão, agora mesmo, olhando, espantados, a invasão incrível de burros, incompetentes, incapazes, oportunistas, conflituosos, prolixos, burocratas e simples oportunistas nos degraus vários da nossa hierarquia comandante.
Sítios há em que - desde o porteiro ao Director Geral - o melhor é não transpor aquela porta, nada percorrer de tal edifício, sob pena de severos sentimentos de náusea, cólica urgente, asma repentina, repulsa instintiva, calafrios, simples pudor.
Projectos há em que nos apetece a ignorância para não saber.
Gentes existem que apenas vêm razão de sobreviver impedindo a livre criatividade, o sonho e a diferença aos outros.

Outros ainda que, sempre que vêem algo funcionar bem por si, sem o gasto nem o ónus aparente da raiva e do controle, ficam imediatamente ciosos de intervir, para nos pôr a mesa albardada da conveniência, da corrupção e da intriga, com colarinhos de verniz e camuflagens de amizade.
Os homens probos, esses, são raros; e têm urgentemente de preparar o futuro.
Porque, sem eles, essa tal coisa de Futuro poderá nunca existir decentemente.

Pedro Barroso
Quinta da Raposa, Riachos, Fevereiro 2012

(Source)


Harold Bloom e O Vírus Influência

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , , | Posted on 22:55

O vírus influência

Aos 80 anos, Harold Bloom, o maior teórico da ansiedade como definidora da história da literatura, lança obra em que repassa sua trajetória intelectual

Marcos Flamínio Peres

Um dos mais importantes críticos norte-americanos desde o pós-guerra, o americano Harold Bloom, 80 anos, acaba de lançar um balanço de sua formação intelectual. Em Anatomy of influence: Literature as a Way of Life (Anatomia da Influência: Literatura como Modo de Vida, Yale University Press), ele relembra a infância pobre vivida durante a Grande Depressão, o ingresso na Universidade Cornell – onde já se destacava como garoto prodígio e grande conhecedor da poesia romântica inglesa –, a transferência para Yale e o desenvolvimento da ideia de influência como definidora da história da literatura.

O ápice de sua trajetória intelectual e também midiática viria, em 1973, com a publicação de A angústia da influência – expressão que o próprio autor chamaria posteriormente, em novo “Prefácio” à obra (1997), de “a ansiedade da influência”, substituindo “anxiety” por “anguish”. Nele, Bloom reescreve a história da literatura baseado no confronto entre obras e autores – um já canônico e influência perene, outro que busca escapar de sua esfera e encontrar um espaço de criação próprio – isto é, originalidade – dentro do cânon da literatura.

Assim, num primeiro momento a obra literária constrói-se com base em um ponto de vista interno, à revelia de fatores fora dela. Um texto não deve explicar o momento histórico em que foi produzido, ou a relação entre as classes socais, ou a situação da mulher, ou de qualquer minoria. Bloom estava claramente alvejando os estudos culturais – mas também sendo alvejado por eles.

No “Prefácio” à segunda edição, 24 anos após a primeira e em plena efervescência dos estudos culturais nas universidades norte-americanas, ele bate pesado: “Estamos hoje numa era da chamada ‘crítica cultural’, que desvaloriza toda literatura de imaginação, que degrada e rebaixa particularmente Shakespeare. A politização do estudo literário destruiu o estudo literário e ainda pode destruir a própria cultura erudita. Shakespeare influenciou o mundo muito mais do que o mundo o influenciou” (A Angústia da influência, 2ª. ed., trad. Marcos Santarrita, Imago, 2002).

Ironicamente, Bloom parece compartilhar a opinião de seus adversários teóricos de início de carreira, os “new critics”. Gente como Robert Penn Warren e Cleanth Brooks, que defendiam a tese de que um texto é uma entidade autônoma, desvinculada de qualquer realidade que não sua própria construção linguística.

Claro que isso não combina com o princípio da influência, que dá sustentação à teoria poética de Bloom e segundo o qual um texto transcende a si próprio para se impor, ao longo do tempo, como angústia/ansiedade a seus leitores/criadores. Contudo, Bloom admite ainda menos que um texto literário seja a explicação de qualquer coisa que não a si próprio: “Historicistas ressentidos de vários credos – derivados de Marx, Foucault e do feminismo político – hoje estudam a literatura essencialmente como história social periférica. O que se jogou fora foi a solidão do leitor, uma subjetividade rejeitada porque, supõe-se, não possui ‘existência social’.”

A ideia de que uma obra possa assombrar o presente com sua originalidade esmagadora, em relação à qual – e contra a qual – as gerações posteriores têm de se afirmar, soa mal aos estudos culturais, pois desparticulariza a especificidade do tempo presente. Aceitar a hipótese da influência como angústia/ansiedade é admitir que o ponto de vista do crítico cultural, firmemente ancorado no presente e com base no qual rearticula toda a tradição literária, não é tão onipotente e, logo, confiável.

E será justamente Shakespeare que Bloom vai apresentar, de modo provocador, como prova irrefutável de sua teoria poética – e também quem ele terá de proteger dos ataques culturalistas: “A verdade maior da influência literária é que é uma ansiedade irresistível: Shakespeare não nos deixa enterrá-lo, nem escapar dele, nem substituí-lo”, diz no “Prefácio”.

Freud, claro, é um dos esteios conceituais de que Bloom assumidamente lança mão, em particular o conflito geracional entre pais e filhos presente no “romance familiar”. Essa imagem, na base da psicanálise, está subjacente à leitura que Bloom faz da literatura, particularmente a de língua inglesa, como luta contínua pela invenção a partir – e contra – dos cânones.

Assim, Wallace Stevens é assombrado por Walt Whitman, assim como  Tennyson tem de se ver com a obra de John Keats, e mesmo O Paraíso Perdido de John Milton, tem sobre seus ombros o Hamlet de Shakespeare, como Bloom aponta em seu novo livro.

O sublime

Mas Bloom também era um grande teórico do sublime, entendido como elevação da alma acima das contingências. Primeiramente abordado por Longino na Antiguidade, no pequeno tratado Do Sublime, o tema seria retomado por Kant, na Crítica da Faculdade de Julgar e, em chave política, pelo inglês Edmund Burke – a quem Kant critica.

O sentimento do sublime implica necessariamente o apequenamento do indivíduo diante do inapreensível – seja diante da grandiosidade de uma paisagem natural, como em Kant, seja por meio da retórica, como em Longino.

Em ambos os planos – na natureza ou na linguagem –, o sublime está sempre associado ao “fracasso do pensamento lúcido” e, por consequência, sempre supre uma ausência. Assim, na impossibilidade de o desejo realizar-se diante de algo que transcende a compreensão do indivíduo, só resta a este render-se à ansiedade como princípio criador, pois ela “substitui o desejo como princípio da individuação”, aponta Thomas Weiskel em O Sublime Romântico (ed. Imago, trad. Patrícia Flores da Cunha, 1994). Weiskel, não por acaso, estudou e lecionou com Bloom em Yale.

Inquisição

Ora, para Bloom a psicanálise torna-se então um limitador para a criação artística, à medida que abre mão de “modos de prazer mais primordiais por modos mais refinados”, em sua intenção de proporcionar “maturidade emocional” ao indivíduo. Para Bloom, “não é essa a sabedoria dos poetas fortes, [porque] o sonho de que se abre mão não é apenas uma fantasmagoria de interminável satisfação, mas a maior de todas as ilusões humanas: a visão da imortalidade”.

Bloom está aqui na mesma linha dos críticos que associam Freud à burguesia ascendente do início do século 20.

Já tardiamente, o cineasta alemão Werner Herzog, durante palestra no 3º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural, foi mais longe e comparou a psicanálise à Inquisição porque, afirmou, ela tenta eliminar do homem seu lado “escuro” – e, logo, criativo.

No fundo, ao teorizar sobre a ansiedade na poesia inglesa, Bloom reflete sobre a questão inerente a toda arte: a capacidade da representação – ou, então, seu colapso.

Fonte - Revistacult

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