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Um Perfil, Assassina De Escritores

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , , , , | Posted on 07:18


Alessandro de Souza

in

´´Um Perfil, Assassina De Escritores´´



- Olá, tudo bem?
- Tudo... Você quer falar com quem?
- Com você mesmo...
- Com você mesmo, quem?...
- Você não é o escritor?...
- Quem está falando?
- Você não conhece... Fui eu que te escrevi muitas vezes... Sou a Shika...


- Shika!... Como descobriu meu telefone?
- Rastreei você até encontrar... Sou fascinada por você... Pelo que escreve... Já viu que escrevo também?
- Li alguma coisa...
- Nem precisa comentar... Sei que escrevo mal.
- (...?)
- Tenho uma fantasia por pessoas estranhas como você.
- Estranhas, como?
- Ah, cara! Você sabe de que estou falando. Você mesmo diz que é estranho... Sabe que já li quase tudo que você escreveu na Internet?... Você é mesmo estranho. Eu adoro... Curto de montão...


- Você esta falando de onde?
- Você não gosta que saibam de você, mas gosta de saber dos outros, não? (Risos)
- Principalmente quem liga p'ra minha casa sabendo mais do que deveria saber sobre mim.
- Não sei tanto de você como gostaria... Só o suficiente p'ra ser fascinada por você... Sua voz é bonita... Leio seu texto sobre a sua idade, e fico fazendo as contas p'ra descobrir quantos anos tem. Pela voz da p'ra saber que não me enganei... Foi p'ra mim que escreveu aquele texto sobre o amor?...
- Não escrevi nada p'ra ninguém da Internet...
- Você fala exatamente como eu sou... Conhece meu coração, ou melhor, minha alma como a palma da sua mão. Sabe que eu procuro os homens nas ruas e fico com eles, pensando que é você?... Sabe que sou eu quem não vejo os rostos dos homens com quem fico? Sabe que foi você que eu vi quando disse aquilo do final do conto? Cara, você é, tipo assim, um Jesus p'ra mim...


- Você acha que e' “A Mulher dos Homens Sem Rosto?
- Acho não. Tenho certeza... Você investigou minha vida e escreveu...
- Desculpe, mas esta delirando... Não tive nenhuma pessoa em mente quando escrevi. Foi tudo fruto da minha imaginação... Uma dessas inspirações sem modelos...
- E dai?
- Dai, o que?
- Gosto quando você fala assim de mim... Fala mais, vai!...
- Desculpe moça, tenho que desligar. Estou muito atarefado hoje...
- Duvido que você queira desligar, cara. Eu sou o centro da sua vida. Você pensou em mim o tempo todo. Você me ama mais do que a si mesmo. Sei que se eu disser que vou desligar, vai implorar p'ra que eu não o faça. Nos nascemos um para o outro, cara. Você não vive sem mim...
- (...)
- Não vai desligar?... Desliga!... Se desligar, vou sumir da sua vida p'ra sempre, tá sabendo?...




- Desculpe, mas você não e' uma pessoa normal...
- E você pensa por acaso que é normal?... Você vive escrevendo que é estranho... Você sabe disso mais do que ninguém, cara!... Estou certa, ou não? Sei ou não sei tudo sobre você?... Sou ou não sou analista de escritor?... Não vai desligar?...
- Não vou porque preciso saber quem é você...
- Você acha que ofereço perigo?... Acha que sou uma assassina que mata escritores em serie?... Sua imaginação é muito fértil, cara!... Você vive os personagens que cria, como naquele filme sobre o escritor.
- Você é quem esta vivendo isso... Desculpe, moça, mas confesso que estou muito surpreso com tudo que esta acontecendo. Ou você e' muito louca, ou esta brincando. De qualquer forma, é uma pessoa inteligente, e a brincadeira e' muito bem pensada...
- Que mais... Adoro quando fala de mim. Mesmo que seja um absurdo... Vejo o quanto é inteligente, e tem a mente rápida e fértil...
- Mas a sua é assim também...
- Quando vai escrever mais a meu respeito?
- Hoje mesmo. Vou escrever essa conversa louca e publicar na Internet como faço com todos meus textos.
- Oba, que legal!... Vai mesmo, cara?... Vou te ligar outras vezes então... Passe bem, meu criador... Você é meu deus, sabia?...

(Risos. Desligou).



Mais um dos ''escritos'' de Alessandro. Sempre teve talento com as palavras... Se passar por aqui, Alessandro, ''daqui vai um olá e sim, fui lá no sitio buscar pela janela viva do espaço, aqui os seus textos... se acha que abusei, avisa!!! ''


O Sonhador Se Foi...

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , , , , | Posted on 08:15



O Sonhador Se Foi

Novembro de 2005

O tempo passou, correndo como o vento, depois daquela última ida do Sonhador. Depois da última descoberta do Poeta. Depois das últimas saudades, das últimas vontades, das últimas verdades. E foi numa noite sem estrelas, sem chuva, sem vento, sem dores nem amores que o mundo caiu... ou melhor, foi aí que nossos amigos caíram no mundo e pediram as contas.


Foi numa noite, depois que o tempo passou. Depois que o tempo correu numa ira desenfreada para que tudo caísse num esquecimento sem rancores. Ou lembranças. E, de tanto correr, o tempo tropeçou. Tropeçou numa dobra e caiu numa dimensão onde ele não existia, onde ele pôde ler os pensamentos de dois seres que já não eram mais nada um para o outro. Metades de um espelho quebrado, palavras num rascunho, sonhos frustrados. Ele olhou, leu. E viu.


Viu o Sonhador correndo numa estrada de neblina, sem refúgio, sem pátria, sem sentido. Sozinho. Fugindo. "Saiam daqui!", ele dizia, ele gritava desesperadamente. "Mentira!" ele respondia, aos berros, a uma tortura mental. Ele chorava. Tinha os olhos vermelhos de quem já não vê há muito tempo. Tinha a mente confusa, pois havia brigado com os sonhos. Tinha o coração desiludido, pois já não conseguia entendê-lo. Nada de paz de espírito, nenhuma idéia completa ou perfeita. Perdido no esquecimento, no tempo, no mundo. Ele corria, vindo do nada, seguindo sem rumo. Provavelmente não chegaria a lugar algum.


Do outro lado daquele plano sem sentido, o Poeta abria os olhos. Havia ouvido os sinos da verdade despertarem seus devaneios antes perdidos no mundo de sombras. Pôs em dia suas últimas vontades, e se deu conta de que a chuva havia passado há muito. Seu coração suspirava baixinho, pedia a liberdade de criação. Sua vida acordava daquele sono forçado, ele se lembrava dos fatos passados... e lembrou. Lembrou, mas não viu nem sinal de sua lembrança. Procurou por todos os lados. Lá fora, viu o mundo belo de raios dourados do sol. Lá dentro, achou idéias em desenvolvimento. Em nenhuma delas viu o rastro brilhante do Sonhador, seu sorriso despreocupado, suas vontades sem limites. Mas... ele foi porque quis, não é mesmo? E quem se importa com um maluco que quer o mundo e saiu para conquistá-lo?


No meio da estrada nebulosa, o Sonhador virou para trás, como se sentisse que alguém o chamava. Baixinho e longe, muito longe. Nisso de virar, tropeçou e caiu. Como o Tempo. Só que ele caiu num chão duro e novo. Numa dimensão onde a noite era um teto de pontos luminosos, escondidos atrás de nuvens cheias de novidades. Onde o ar era quente, ainda que o vento gelado e vigoroso. Agora, a vida era outra. Haviam ponteiros, ampulhetas que viravam e eram desviradas, um passado de fatos eternamente mortos, um futuro de idéias prematuras, um presente generoso para criar tudo isso. Fantástico, o mundo daqui. Fascinante, a verdade real. Deixa de saudade, adeus às ilusões. Ei, me deixa ver como viver é bom... afinal... não é a vida como está, e sim as coisas como são...


Sei, sei... muitas verdades. Você continua ditando seus sentimentos como leis a serem seguidas. Pense bem, pense melhor, pense em tudo: Tem certeza de que isso não importa? De que isso não foi nada para você? Ora, vamos... não seja ingrato. Ora, consciência, não me desafie. Como isso tudo (ou nada) poderia ter sido alguma coisa, qualquer coisa? Não minta, não console. olhe para a pilha de versos sem plenitude ou sentido que moram no meu quarto. Compare-os com minha mente agora tão sensata e cheia de si. Deixe-me em paz! Nada de conflitos psicológicos do infinito que já passou. Sombrio, basta-me o coração. E não me venha com teorias... o Sonhador é como os sonhos que faz e não realiza. Dele, nada há senão vazio sem razão.



Seu coração jamais pertenceu a mim. A idéia do que era verdadeiro perdeu-se na ilusão. Eu não acredito nele. Eu não acredito em sonhos alienados, eu não quero poetas frustrados. Da ponte entre o nada e o ilusório, caí no real. E não senti dor.



Deixe-me só. Irei entre o visível e o invisível, nem que isso me custe o medo de cair no nada, num futuro perpétuo. Poderei olhar-me no espelho...

E assim verei-me por dentro, na plenitude do meu eu.
Verei o nada que me resta. O nada que não há.

Não haverá versos.

Nada de sonhos.

Quero ir. Deixe-me ir.



- Desde o inicio que este texto foi escrito pelo Alessandro, sempre gostei imenso dele. Sempre coloco ele, sempre que a ocasião assim predestina. Sei que já o repeti em outros sítios... mas quem gosta não se cansa. Não é mesmo? -

As fotografias e ilustrações estão no blog do próprio autor inseridas no texto que escreveu.

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