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A Inveja

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , | Posted on 05:33

REFLEXÕES SOBRE A CRISE
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INVEJA SOCIAL E CONSUMOS

13/Outubro/1990 - Hipótese impensável (incrível ou inacreditável) e que só pode, portanto, ser matéria de ficção, é a que agora me ocorre, depois de ver, numa revista francesa de grande luxo - a «Marie Claire» - uma secção dedicada à «defesa do consumidor» intitulada «escroqueries».
Sim senhor: o sistema admite enfatizar a pequena escroquerie, como forma de disfarçar as grandes. Mais: mostrando que o mundo dos médios e baixos consumos é reles, ordinário, vulgar, de baixa qualidade, este tipo de defesa do consumidor exalta automaticamente o «alto consumo», as coisas que são de qualidade porque são (+)caras.
Mas a essas só uma minoria tem acesso. É necessário. entretanto, que a maioria fique cheia de inveja dessa minoria, que tem acesso às coisas de qualidade. Todas estas revistas - «Marie Claire», «Elle», etc - são máquinas feitas para accionar o grande motor do consumo e da sociedade de consumo: a Inveja.
Tratando-se de publicidade, atenção às subtilezas. Se nas citadas revistas do «consumismo» se pode encontrar referências às algas como produto de beleza, à talassoterapia, aos banhos de mar, à Natureza e ao biológico, é apenas porque os grandes laboratórios dos produtos (ainda) químicos já estão investindo também nos produtos «biológicos».
Não se confunde este tipo de solicitude pelo «natural» com uma visão ecológica da vida, com o amor à vida e à Natureza. Significa apenas que as sete irmãs já estão com um pé no (negócio) futuro, apostando no que hão-de ser os usos e costumes depois de a química ser destronada.

-inveja>ecos>inéditos AFONSO CAUTELA 1990


(...)Nem pessimismo, nem optimismo - mas realismo - parece-me ser a única atitude justa e não afrontosa para todos os pobres e esfomeados da Terra. (--) A.C.

Psicopatologia Portuguesa e Europocêntrica

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , | Posted on 05:04

O objectivo da publicidade é tornar-nos infelizes

Segundo li, há em Portugal um milhar e tal de publicitários. 

Melhor do que ninguém esses portugueses podem testemunhar sobre o papel redentor que a publicidade teve e tem, neste País, na redução de cada um à sua insignificância e na criação de uma maior e mais esclarecida consciência de classe.
De facto, se o estatuto de «gente» só é conferido a quem tiver dentes brancos, hálito puro, moradia na praia, alcatifas Cuf-têxtil, margarina vaqueiro que torna tudo mais apetitoso (...), se a gigantesca lavagem ao cérebro operada pelos geniais Portela Filho deste País nos convenceu de há muito da nossa incurável mediocridade, da nossa insanável modéstia, da alvar insignificância dos nossos gestos e comportamentos, então o caminho da felicidade e da qualidade de vida, hoje, só pode ser o que o «marketing» e os poderosos líderes da opinião nos apontam: mais pasta colgate, mais alcatifas Cuf-têxtil, mais desodorizante, (...).

8-11-1992
Afonso Cautela 


O MUNDO DA (IN) TOLERÂNCIA

 À mentalidade europocêntrica há que substituir uma mentalidade excêntrica, quer dizer, substituir a noção de absolutismo cultural pela relatividade e pluralidade cultural, relatividade que deixe de considerar a Europa e o europeu o centro do Universo ao qual tudo se subordina e refere.
Com a exploração do espaço cósmico, será possível que o europeu ainda continue convencido de ser o umbigo do infinito? E convencido de que a Razão A é a única razão surgida em todos os tempos e lugares para uso de todas as humanidades?
É evidente que a sociedade de consumo – reduzir o homem a mercadoria, a objecto de compra e venda, a animal consumidor – apenas vem intensificar um processo que já está implícito nos fundamentos da cultura A, movida pela razão A, intolerante para todas as outras – de A a Z – etiquetando essas outras, sempre, de epítetos pejorativos, deprimentes, humilhantes: louco, anormal, raça inferior, povo selvagem, língua primitiva, atrasado mental, comportamento irracional, mentalidade pré-lógica, perigo social – eis alguns clichés que a sociedade de consumo vai buscar ao racionalismo de via reduzida – razão A como única e dominante , senhora absoluta e prepotente de tudo e de todos – para oprimir e aviltar.
As morais maniqueístas, por exemplo, resultam directamente da epistemologia racista que é o racionalismo A. Os conceitos de virtude, honra, sacrifício, traição, fidelidade (e todos os que compõem o chamado “psiquismo” do civilizado) são pré-conceitos.
Códigos e Cânones – de beleza e de virtude, do belo e do bem – resultam de um código de verdade que é o da verdade A ou razão A. E mais nenhuma tem direito à vida. O índio coloca-se na reserva ou extermina-se, como traidor à beleza, à virtude, à verdade.
A mitologia romanesca em vigor está empapada de constantes alusões ao belo rosto, ao bom comportamento, à ideia verdadeira.
7-11-1971
Afonso Cautela 

«O Caos empurra-nos para a Ordem, 
o Diabo para Deus»
Afonso cautela 

RECUAR UM PASSO PARA AVANÇAR VINTE

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , | Posted on 17:53

RECUAR UM PASSO

PARA AVANÇAR VINTE (*)



In «Futuro», «O Século Ilustrado», Lisboa, 22-5-1971

Supõem alguns que falar do futuro é (apenas) prever, até às últimas consequências, o que vai ser esta civilização tecnológica (à qual por acaso pertencemos e é uma entre muitas das civilizações possíveis) e que nenhuma alternativa se apresenta, portanto, para substituir ou contrariar a lógica onde estamos embarcados, a ordem a que devemos obediência, a estrutura de que somos um mísero e intransponível parafuso. Como parafusos, nada nos pode tirar de onde estamos e há que seguir, na engrenagem, até à consumação dos anos, e - dizem os pessimistas - dos séculos.

Isto é acreditar que a Humanidade se resume à civilização tecnológica, a qual (afirma-se) dominará exclusivamente em todo o universo e por todos os séculos dos séculos vindouros. É acreditar também que nenhuma outra sociedade, diferente, surgiu ou surgirá e que se esta morrer às suas próprias mãos, tudo - através das galáxias - terminará com ela.

Diga-se, no entanto, que uma tal crença é, além de pretensiosa, um tanto ridícula e abusiva. Pois não só está provado que todas as civilizações são mortais (teoria, como se sabe, eruditamente demonstrada por Arnold Toynbee) como virão sempre outras substituir as que morrem (ou suicidam? ). E que, se tudo indica estar a civilização dita ocidental no estertor, a caminho de um apocalipse termonuclear ou de uma asfixia por contaminação da biosfera, ou da loucura colectiva pelo congestionamento de estímulos, dados e signos que bombardeiam as meninges, muito provavelmente e mesmo ao nosso lado já estará a nascer outra civilização para substituir a ilustre moribunda.

Por isso é que se alguns esperam um apocalipse, outros esperam também uma nova Utopia. Se muitos acreditam num Fim, também já há muitos que estão trabalhando para um novo Começo. Se há os que contestam e colocam em questão a civilização herdada, outros estão realizando a reviravolta pacífica para um outro padrão de existência, outro tipo de relações humanas, para uma cultura, enfim, radicalmente diversa da vigente que hoje vigora.

Ao criticar-se a cultura (a sociedade) tal como a temos, pressupõe-se uma contracultura: e avaliar o futuro é ver sempre ambas as faces da moeda. Nesse trabalho de contracorrente, os «descontentes da civilização» como lhes chamou Freud, desempenharam, ao longo dos anos, um papel de síntese e catálise. Houve sempre as ovelhas «ronhosas» que não quiseram ir no rebanho, as individualidades, rebeldes por definição, que preferiram o isolamento incómodo e pagaram geralmente com a insegurança, a doença, o hospital ou o cárcere o seu descontentamento, a sua discordância, a sua não integração participante nos grandes e confortáveis conjuntos.

Tudo indica que a lógica da civilização tecnológica não poderá deter-se, que irá até às suas últimas consequências, que se continuará a depredar e a esgotar a natureza até que esta contenha, matérias primas, fontes de energia e reservas de vida que forneçam as caldeiras da Produção que logo a seguir irão fornecer o consumo delirante.

Mas muitos são os sinais, também, de uma outra sociedade, coabitando com esta, nascida de grupos e movimentos juvenis, disposta a não gastar mais os recursos naturais, a restabelecer o equilíbrio perdido, regressando a um estádio só «aparentemente» primário da história, mas representando real e efectivamente, a mais avançada vanguarda dos que sabem prever para prover. (Prever é a atitude mais científica que há).

Se os excessos do consumo conduzem o presente a hipóteses de futuro bem pouco aliciantes, e várias ameaças estão pendentes sobre o pescoço da passiva Humanidade, é dialecticamente irreversível, imparável, a realidade nascente dos que se opõem à total destruição e pretendem, precisamente, preservar a civilização quando aparentemente a estão negando, contestando, contrariando, pelo regresso a fases ditas não civilizadas do comportamento.

O «regresso à natureza» (que as massas, aliás, já adoptaram em grande escala, pelo consumo de férias no campo e na praia, longe dos conglomerados urbanos), as comunidades rurais, os hábitos alimentares novamente frugais e simples, as relações humanas sem preconceitos e sem erotismo, uma simplificação dos actos vitais da existência e um quotidiano recuperado, são as características de uma juventude a quem o mundo urbano se tornou insuportável e intolerável e a quem o futuro está entregue mas que o recusa reconstruir da mesma e única maneira como até agora as gerações transactas o construíram.

E isto - embora se proclame o contrário - para «in extremis» evitar destruí-lo. Irremediavelmente.



(*) Este texto de Afonso Cautela, 5 estrelas, foi publicado com este título na coluna «Futuro», «O Século Ilustrado», Lisboa, 22-5-1971 

A CRISE

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , , | Posted on 19:15

A CRISE DOS ECOSSISTEMAS
A QUE CHAMAM MODERNIDADE E PÓS MODERNIDADE

por, Afonso Cautela

A Crise que estamos hoje a viver é apenas, o último capítulo dessa história do progresso como meta e mito ou da Modernidade como um combate interminável para a definitiva reificação do homem.


31/5/1992 - Se pós moderno significar pós industrial, os conceitos clarificam-se e a gente entende-se melhor. Tal como os filósofos têm teorizado, porém, tudo parece votado a uma certa neblina, surgindo ao leigo um discurso cada vez mais obscuro sobre o que as autoridades e especialistas entendem por moderno e pós-moderno.


O escândalo político que estalou à volta de Heidegger, figura tutelar do modernismo, não foi nem será provavelmente o último episódio de um folhetim que promete novos desenvolvimentos, à medida que o tempo passa e torna obsoletos - matéria de museu e antiquário - os modernismos mais na moda. Será que - perguntam alguns - também no campo das teorias o sistema entrou em derrocada, a modernidade envelheceu, as vanguardas criaram rugas e os carismáticos gurus, afinal, estavam do lado dos mais óbvios tiranos?
Há quem sobreviva através de um poderoso aparelho de erudição e/ou publicidade, como no caso de Habermas, recentemente traduzido para português, há quem entre na corrente das facilidades de consumo como Lipovetsky, há quem confunda o simples e torne ilegível qualquer discurso como Baudrillard e Lyotard, facto que lhe retira leitores mas lhe garante lugar certo no panteão dos pensadores e da filosofia ocidental.
Mas se quisermos avaliar a raiz da árvore pelos frutos que dá (o imperialismo industrial que se diz triunfante por todo o Orbe) a conversa muda um pouco de figura e a pós modernidade fica paredes meias com o ano zero da nova Idade da Pedra.

Creio ter sido Einstein quem disse que a quarta guerra mundial será à pedrada, se a terceira se consumar.
Talvez por isso o debate sobre a modernidade não seja tão académico como o têm feito alguns teóricos e universitários e talvez a presente Crise, com maiúscula, tal como os dois choques petrolíferos anteriores, não sejam meramente por acaso mas subprodutos estruturais de um sistema e da «filosofia do progresso» que lhe subjaz.
As famosas «crises», no fundo, reflectem, como num espelho, a estrutura do sistema que há demasiado tempo vive de ir matando os ecossistemas. Guerra química, guerra biológica, guerra nuclear são, enquanto indústrias de paz e com fins pacíficos, a nata da Modernidade e desde a segunda Grande Guerra o cavalo de batalha da oposição e resistência radical-ecologista, única filosofia a opor-se, sem medo, a todas as filosofias do progresso e das luzes.
A Crise que estamos hoje a viver é apenas, o último capítulo dessa história do progresso como meta e mito ou da Modernidade como um combate interminável para a definitiva reificação do homem.

Só a esta luz (da vela) pós-apocalipse, faz sentido continuar o debate que nuns casos se tornou académico, em outros um mero arranjo de eruditos e, em outros ainda, uma forma velada de colaboracionismo com o poder estabelecido.
A modernidade que está nos livros dos filósofos de carreira é antes a pré-história: os cenários de guerra que se traçam neste momento, biológico, químico e nuclear, provam que a ecologia não é uma reivindicação de cientistas «lúcidos» mas uma ciência gerada nos crematórios industriais contemporâneos. Sem a consciência e a recusa disto, toda a filosofia e toda a modernidade é colaboracionista no sentido mais prónazi do termo.

Indústrias com « a morte na alma » jamais poderiam ser pacíficas porque traziam no ventre a (lógica de) guerra: desde 6 de Agosto de 1945 que o aviso estava dado, mas mais uma vez foi esquecido. 45 anos depois, ainda há muito gente a procurar compreender porque não pode o Ocidente, afinal, estar quieto, sossegado e em paz. E, o que é pior, ainda há muitos filósofos que teimam em não perceber.
Relativamente aos filósofos que era suposto encontrarem-se de mãos limpas, deverá constatar-se que nem só no campo editorial os autores de teorias se sentaram no banco dos réus. De alguns já anteriormente divulgados entre nós, como Popper e Althusser, voltou a falar-se e de maneira desconfiada, como se os intocáveis começassem a dar mostras de evidente decrepitude e desmandos mentais.
Uma entrevista de Popper à revista alemã e que o jornal «Público» divulgou entre nós, é a apoteose da demência senil e deve ter deixado os seus discípulos em palpos de aranha. O falecimento de Althusser, com os artigos necrológicos que motivou, foi outro dos acontecimentos que se podem incluir neste panorama de sistemática desconfiança, de má fé que à volta dos construtores de sistemas se estabeleceu num tempo em que os ecossistemas começam a protestar mais alto que as palavras contra os abusos da Modernidade científica e tecnológica.


Entre os filósofos mais falados nestes últimos 12 meses, Heidegger foi vedeta mas um outro se tornou placa giratória de debates e controvérsias: Habermas, na oportuna tradução para português dessa obra esmagadora, para ler a vida inteira, que é o discurso filosófico da Modernidade.


[Mas quem somos nós para discutir os grandes arranha-céus da filosofia, se vivemos numa cabana, como foi o caso de Kierkegaard frente à mole imensa de Hegel?
De qualquer modo e porque um leitor não tem necessariamente que ser um seguidor de teorias, - exactamente porque gosta de as seguir todas... - aqui fica um rápido apontamento, em flash back, sobre o segundo dos dois livros citados.]

(source)

 31-5-1992 - Modernidade é tudo o que escapa ao discurso filosófico da modernidade. Vozes, perspectivas e discursos que estejam fora do controle racional moderno, são, com certeza, modernos.
Visões do mundo testemunhadas por «out-siders» - a criança, o deficiente, o louco, o delinquente, o condenado à morte, o esquimó, o analfabeto, o navegador português de quinhentos, o (...), são os modernos de todos os tempos.
Situações-limite são as únicas que podem originar um discurso moderno.

(source)

A Meditar

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in | Posted on 20:35

Pensamentos de Afonso Cautela recolhidos por mim

(...)Depois há aqueles livros(...) que têm alguns grãos de sabedoria aproveitáveis mas perdidos, misturados num monte de retórica e de superfluidades.
O prolixo (que se pode ler pró-lixo) também ocorre com uma grande frequência.
(...) Muita parra e pouca uva. Longos e chatos, é o que é.
Francamente: há formas mais honestas de nos esportularem dinheiro mas principalmente de nos espoliarem daquilo que (...) nos é mais precioso: o tempo (cronos) que não podemos perder no trabalho para a eternidade.
Os devoradores de Cronos são, de facto, verdadeiros assassinos de almas.(...)


(...) É claro que não se chega a Deus pela leitura. Mas talvez se possa chegar pela desleitura ou seja, sabendo, de todo, o que não vale a pena ler. E quais são afinal os 100 volumes que, na Biblioteca de Alexandria, transmitiam ao futuro a sabedora por inteiro.
Para já e enquanto não reconstituímos a Biblioteca de Alexandria, vamos vendo e sabendo e comunicando uns aos outros, o que não vale a pena ler.
O que não vale a pena perder cronos a ler. (...)

(...) Se não vamos a Deus pelos livros, pelos livros de ciência e pela tecnologia é que decididamente só iremos, como fomos sempre e continuamos indo, aos quintos dos infernos. (...)

(...) Os seres humanos foram sempre oprimidos por 3 instituições: Igreja, Estado, Exército. Mas acima dessas todas e a todas dando alento, a Universidade é quem tudo pode e quem forma e diploma todos os poderes.

(...) além do mais, um dever de humanidade de cada ser humano com outros seres humanos seus companheiros de infortúnio. Aqueles que para falarem com outro ser humano não lhe perguntam primeiro qual é a sua formação académica...
Um dever que implica cortar de vez o cordão umbilical que cria, sustenta, multiplica, amplia e lança sobre os seres humanos, oprimidos, as 4 instituições opressoras por excelência do famigerado Mundo Moderno. (...)

(...) o primeiro dever de um verdadeiro anarquista. Um verdadeiro anarquista não deverá nem poderá ceder um milímetro às ciências e aos poderes profanos.
Porque é de servir a deus, ao sagrado e ao espírito que se trata. E o mais depressa possível, como explica Roger Garaudy.(...)





Gandhi e a Não Violência

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , , | Posted on 19:41




APRENDER YIN-YANG

GREVE DA FOME PARA TODOS OS GOSTOS (*)

(*) Este texto de Afonso Cautela, 5 estrelas, foi publicado com este título e ainda bem (oxalá possa publicá-lo mais vezes) na «Crónica do Planeta Terra», «A Capital», 4-2-1984

[In «Crónica do Planeta terra», «A Capital», 4-2-1984]

A não violência praticada por Gandhi e o ódio de classes teorizado por Marx são opostos irredutíveis. Dois proveitos não cabem no mesmo saco. Nem mesmo a tolerância dialéctica yin-yang, aprendida dos taoístas, tolerância que é costume invocar quando se quer misturar a água e o fogo, autoriza a meter estes dois contrários absolutos no mesmo pote.

Só os contrários relativos ou complementares entram no jogo taoísta do Yin-yang . E de pouco serve querer conciliar o Satã contemporâneo, o Anti-Cristo da violência erigida em religião, com o Deus das bem aventuranças salvíficas.

Ainda que - como rezam as Escrituras - o Diabo seja um Anjo caído e um filho de Deus não reconhecido pelo pai.

Para nos safar do beco contemporâneo - cuja única saída é o holocausto nuclear - teremos de reaprender sem dúvida, e rapidamente, a jogar o yin-yang, desportivamente encarar o inimigo como um adversário de ping-pong, Mas a condição prévia dessa iniciação no yin-yang é não invocar o seu santo nome em vão, nem admitir em seu nome tudo quanto o destroi.

SACO DE GATOS

Posto isto, as greves da fome - técnica não violenta - para impor posições violentas de ideologias baseadas no ódio e na luta de classes, que se perpetuaria até à ditadura de uma delas, entram em contradição não dialéctica.

Como travestis se devem encarar, igualmente, os belicismos que dizem defender a paz, a luta de classes que apela ao pacto social, os ecologistas que postulam a revolução por meios violentos e outras oposições irredutíveis que se passeiam calmamente em nome do Tao supremo ou mesmo do supremo Mao, seu herdeiro moderno e que consultava o I-Ching como oráculo nos momentos críticos da governação.

"Sobre a Contradição ", do filósofo Mao Tsé Tung, é um texto de leitura aconselhável e que poderia, se praticado, salvar muitas vidas que a luta de classes continua ceifando. Podia também evitar os espectáculos naturalmente chocantes, os travestis da paz, da liberdade, da vida, estes últimos a defenderem agora, à uma, o aborto como supina moral da indecência e da morte. Macaca.

CONTAGEM DECRESCENTE

"A vida e a verdade é que são as verdadeiras forças".

Máximas gandhianas como esta convidam à reviravolta de 180 graus num sistema baseado em princípios antiteticamente e simetricamente opostos.

E suscitam a geral hilariedade, naturalmente. A moral hoje tornou-se ridícula. Só que o espectáculo "is over", com a bomba à vista. Começou a contagem decrescente para a deflagrar na derradeira catástrofe que o homem se permitirá sobre o Planeta Terra.

Aí, os que se riram da pobreza gandhiana e da pobreza franciscana sua ancestra, já só vão rir amarelo. Mas são eles, tefe-tefe, os primeiros a recear o holocausto atómico, a encomendar o abrigo nuclear, a profetizar que mais de metade da humanidade irá para o galheiro à primeira deflagração de mísseis bons. (E a outra metade, chucha no dedo?).

O medinho de morrer, aí, à Gerontocracia contemporânea, já não lhe parece ridículo. Mas os abrigos anti-atómicos, então, o que são? Como verão hoje esses compradores de abrigos as máximas gandhianas da não violência? Perceberão ao menos a estreita relação de causa e efeito?

Os valores morais da não violência (única Ética hoje possível) atrofiam-se e ninguém acredita que o imponderável do espírito tenha peso no meio da truculência e da violência instaladas. À santíssima trindade - liberdade, igualdade e fraternidade - faltou apenas o golpe de asa: a Tolerância dialéctica yin-yang. E falta. Mas até quando, face à contagem decrescente para o abismo?

PACIÊNCIA EVANGÉLICA

Os gandhianos, no entanto, insistem com paciência evangélica, em fazer a revolução por dentro. E têm cada vez mais razão quando denunciam o fascismo latente de todas as revoluções feitas por fora.

Sabem que é um longo trabalho de paciência, mas se forem muitos a ajudar... Estamos quase no zero da contagem decrescente, quem se filia na Arca?

"Há outras forças além da força armada - disse-nos Parodi, sucessor de Lanza del Vasto na Comunidade da Arca - a vida é uma força, a união dos homens, o trabalho, a verdade também são forças construtivas. "

E concretiza, como La Palisse: " Não se pode construir nada com a força das armas."

Igualmente olhado com um sorriso trocista, que ainda não era amarelo, o jejum praticado por monges budistas, durante a guerra do Vietname, chegava ao Ocidente super-star (através

das endiabradas agências noticiosas) com ar de exotismo execrável.

Quando os violentos guerrilheiros de Esquerda revolucionária adoptaram na Europa (na Irlanda, por exemplo) a "greve da fome" como forma de pressão sobre o Estado - que incarna a excelência fascista em todas as épocas e lugares - as coisas mudaram de figura.

Afinal, jejuar à Gandhi já não era uma mania mística: era uma forma de luta e podia inscrever-se nas alíneas de um caderno reivindicativo, perfeitamente enquadrado na dialéctica da luta de classes.

Quem terá de engolir mais este sapo vivo, quer dizer, mais este paradoxo?

É preciso um espírito aberto e sem preconceitos raciais para olhar as tácticas da luta não violenta sem um riso de comiseração. É preciso saber que estamos a contar para o zero final. É preciso a noção vivida do simples, do pobre e (agora tanto em voga) do "small is beautiful" como valores humanos fundamentais, base de qualquer Declaração de Direitos.

É preciso , em suma, o inverso das ideologias violentas, a Leste ou e a Oeste, fazer stop neste «continuum» ou «perpetum mobile" até ao holocausto final. É preciso, para levar a sério os conselhos tácticos da não violência, acreditar mais na lei da causalidade cármica do que na lei da identidade lógica.

Como escreveu Helena Santos, aliada da Arca em Portugal e tradutora para português da obra de Lanza dal Vasto, "a profecia da ruína futura tem implícito um convite à conversão interior de cada homem (inteligência, coração e corpo) que é a não violência." Outros dirão sinónimos: o Princípio Único, o Tao, o yin-yang.

Esta profecia da ruína planetária, que aproxima os não violentos dos ecologistas, viu-se recentemente adoptada pelos próprios violentos de repente travestidos de pombas evangélicas e pacifistas. Anedota trágica, humor negro.

O TESOURO DOS LAMAS

Escolas de não violência , as comunidades da Arca espalhadas pelo Mundo preparam os seus aliados para acções de resistência passiva, objecção de consciência, greves da fome (a que eles preferem obviamente chamar jejuns), manifestações silenciosas, sit-ins, enfim, as várias formas que assume o combate ensinado por Gandhi e por ele praticado.

"Aprendizagem é inseparável da prática" - repete Pierre Parodi, herdeiro de Lanza del Vasto na "chefia" espiritual da Comunidade-mãe em França.

Tem de facto muito a ver com os conceitos preservados nos países do Oriente esta aliança indissolúvel da doutrina e da prática. Resta um mistério na história contemporânea a invasão sangrenta que Mao Tse Tung fez do Tibete, queimando e saqueando mosteiros da Ordem Nyingma.

Não está ainda esclarecido se o grande Estadista queria libertar os camponeses tibetanos da miséria, se queria descobrir o tesouro guardado nos subterrâneos do Himalaia, a raiz última da Sabedoria, a pedra filosofal ou, segundo outros, o Santo Graal.

O namoro que recentemente a China e a URSS têm feito ao Dalai Lama, para que ele regresse ao Tibete saqueado, faz pensar que não encontram o tesouro e querem guia.

De facto, esclerosada até aos limites do inverosímil (e agora até aos limites do suportável pelo Ecossistema Terra), a ciência enveredou no Ocidente pelo delírio teórico e, ao perder o centro de gravidade, entrou em órbita da Asneira pelo espaço astral fora. Esta perversão explica muitas , se não todas as perversões dominantes neste tempo-e-mundo (imundo) ocidental.

A unidade tão insistentemente procurada e proclamada por Lanza del Vasto é a démarche aparentemente metafísica para reencontrar o real numa civilização de fantasmas (as teorias, as ideologias, os ismos, os sistemas).

Ao falar de realismo, é às fontes do realismo e da dialéctica yin-yang (taoísmo, Zen, budismo tibetano) que o Ocidente tem de recorrer. Se tiver tempo, dada a contagem decrescente...

Gabriel Marcel atribuía os crematórios nazis ao "espírito de abstracção", hoje transformado em religião - a Tecnocracia. Quando se perde o fim e os princípios, tudo é possível. Tudo tem sido possível, soando a heresia as máximas não violentas de Gandhi.

Um personagem de Dostoievski, com certeza dos irmãos Karamazov, dizia o mesmo aludindo à morte de Deus: "Agora tudo é possível". Tem sido, e foi, até aos crematórios nazis. Mas ainda será?

PLENÁRIOS DE TRABALHADORES

Da heresia passamos ao estratosférico.

A democracia que se pratica nas comunidades da Arca, é algo que não se acreditaria neste planeta Terra.

Afirmar que nas comunidades fundadas por Lanza del Vasto, só se tomam decisões por unanimidade, pode parecer um gracejo.

Democracia, nos nossos costumes, é o governo da maioria, em nome da maioria. As minorias metem-se na ratoeira e dá-se-lhes raticida.

O "direito de minoria" é ignorado por essas democracias, por isso também alcunhadas de mediocracias. Embora seja o direito fundamental do homem - ser o que é, pensar o que pensa - , varreu-se dos nossos costumes.

Curioso mas não único paradoxo do sistema em que estamos entalados. O movimento da Arca, embora não o explore demagogicamente, na prática dá uma lição e uma bofetada com luva na fraude institucionalizada das ditaduras da maioria. Uma bofetada não violenta, claro, amigável.

Segundo Pierre Parodi, a verdadeira democracia é a que se pratica nas comunidades da Arca. Mas também reconhece que esta democracia autêntica só é possível num pequeno grupo orientado no mesmo sentido espiritual.

Os cépticos duvidarão mas os não violentos teimam: "Não há autoridade autoritária nas nossas comunidades, todos temos a responsabilidade dos nossos actos."

Se só se tomam decisões por unanimidade, os cépticos constitucionalistas dirão que na Arca não se tomam nunca decisões.

Puro engano. Numa assembleia os discordantes fazem um esforço convergente, no sentido de se aproximarem das outras posições, em vez de se encarniçarem na defesa das próprias posições."

É a dialéctica yin-yang em acção, o segredo de Polichinelo : "Cada um não defende a sua própria opinião mas pesquisa a dos outros."

E assim o dom de cada um é oferecido para o bem de todos.

E assim não é o chefe que toma decisões, mas cada um e todos.

Os adeptos da não violência não hesitam em acusar: "Somos uma sociedade de irresponsáveis.'' Salvo seja. E salvo aquele pequeno defeito já citado : temos os minutos contados.



(*) Este texto de Afonso Cautela, 5 estrelas, foi publicado com este título e ainda bem (oxalá possa publicá-lo mais vezes) na «Crónica do Planeta Terra», «A Capital», 4-2-1984

Afonso
Cautela

SOMOS TODOS RESPONSÁVEIS POR TUDO

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , | Posted on 10:08

Esta trama, este continuum, esta malha sem fim de causas-efeitos-causas, eis o que o nosso instinto de conservação rejeita com um certo mau-humor, porque nos recusamos fundamentalmente a considerar responsáveis por tudo o que acontece, porque tendemos a ilibar-nos da violência, do ódio, do sofrimento que varre, como um vendaval de inferno, o mundo.
A política, neste contexto, é a arte de encontrar bodes expiatórios das nossas próprias culpas.
A tal ponto os nossos mecanismos de autodefesa estão bem montados, que rotulamos de metafísica qualquer tentativa para mostrar a evidência: que tudo se liga a tudo, que tudo depende de tudo, que todos somos responsáveis de tudo, que todos criamos tudo o que nos acontece.
Tudo é energia. Tudo é infinito e eterno. Tudo existe sempre.
Por isso criamos uma infinita piedade pelo nosso ego. Inventamos mil argumentos para o desculpar.
Afinal - que injustiça! - porque nos atinge a inflação, o desemprego, a doença, o cancro, o defeito físico, o desastre, o acaso, o destino, a sorte?! Se eu fui sempre tão bom, tão bem comportado, tão esmoler, tão amigo das crianças e dos pobres, dos velhos e dos animais, porque sofro tanto, porque tenho tanto medo, porque sou tão perseguido?
Assim raciocina o nosso ego.
O nosso ego é não só a afirmação de auto-orgulho mas uma tentativa permanente para ilibar e encobrir a nossa condição totalitariamente condicionada. Para encobrir a evidência de que estamos condenados à Eternidade.
A nossa condição é totalitária e a este totalitarismo há quem chame karma. O nosso ego inventa então um mito chamado liberdade para esquecer aquela temível evidência totalitária. Um mito chamado livre arbítrio.

NASCER PARA A VIDA É NASCER PARA A MORTE

Nada do que acontece é por acaso, toda a desordem acontece porque há uma ordem infinita do infinito universo. Tudo acontece porque todos ajudamos a que aconteça.
Quando se diz nós, digo o corpo infinito e eterno do qual somos hoje apenas um momento, apenas uma célula, corpo que vai para trás até à eternidade e caminha para a frente até à eternidade.
A esta realidade puramente física chamam metafísica os homens assustados que recuaram ao saber que estavam condenados a ser para sempre. Inventaram a morte. Inventaram o suicídio.
Inventaram narcóticos e alucinogénicos. Inventaram a política e o xadrez. Inventaram o cinema e o futebol. Inventaram palavras - metafísica, religião, mito, misticismo - com que pretendem exorcismar a responsabilidade de ser (mos) não um ego ou ilha separada do todo mas a consciência do todo ou eu total.
Por isso talvez não haja exagero, face a este extremismo fundamentalista do óbvio e do evidente, considerar ecoreformistas um Ivan Illich, um Michel Bosquet.
Desde que se cai na rede, desde que se nasce para a vida (que é nascer para a morte como avisavam os cátaros, que por isso foram perseguidos como heréticos), desde que se entra no processo de putrefacção ou de-composição chamado mundo, desde que nos empurram para a caverna platónica chamada existência, todo o gesto ou acção com que se pretende amortizar o sofrimento irá, a curto ou médio prazo, agravar ainda mais esse sofrimento ou karma.
Irá internar-nos mais na caverna das sombras.
Uma vez enredado na inextricável trama chamada realidade, mundo, natureza, meio ambiente, ordem do universo, qualquer veleidade de sair significará sempre e cada vez mais o (afundamento no) caos, a doença, a violência instalada e instaurada, o absurdo em movimento, a infecção generalizada.
Desde que se entre, nunca mais é possível sair. Daí que os mitos de libertação, da evolução, da redenção andem a par com os mitos do futuro, do ideal, da salvação.
Uma vez enredado na malha, o bicho homem projecta na caverna a sua sombra e chama-lhe ideais (idola tribu lhes chamou Francis Bacon): Paz, Saúde, Felicidade, Justiça, Amor, eis a galeria de grandes palavras que cristalizam na mente humana as suas próprias sombras mais temidas. A utopia e o vício de sonhar ou idealizar caracteriza sempre a escravidão de facto.
Prisioneiro da caverna, o homem sonha que no futuro, sempre no futuro, verá o sol e a luz, sonha com jardins do paraíso, com o Eden de Adão e Eva, com o Jardim das Delícias, enfim, não faltam, nas mitologias douradas, de ontem e de hoje, referências constantes à utopia.
Realismo será a posição búdica que reconhece a queda, a escravidão, a caverna, a ilusão das ilusões ou sombras.
Realismo é saber que quanto mais esforços e acções se fizerem para sair do buraco, mais fundo nele ficamos.
O que uma ordem iniciática propõe é apenas a hipótese realista para encontrar a porta de saída da caverna, recuando em relação às sombras em vez de paroxisticamente nos colarmos a elas pelo cultivo da acção, pelo cultivo do ego, pela crença de que se chega mais depressa fortalecendo a vontade de chegar.
O esforço iniciático é uma pausa nesse paroxismo da vontade, uma retirada estratégica do foco infeccioso - o mundo das relações profanas ou ilusões - um recuo na orgia da acção que dê possibilidade de avançar na in-acção ou desfazer de mitos, ilusões, fantasmas.

Palavras-chave deste texto:
Caos
Caverna platónica
Continuum
Convivencialidade
Convivialidade
Ecoanálise
Ecopolítica
Ecossistema
Ego
Equilíbrio estático
Eternidade
Física e metafísica
Imunidade ortomolecular
Carma
Leitura ecológica do real
Malha de causas-efeitos
Metáfora orgânica
Mito da liberdade
Omnividência
Ordem iniciática
Politicoterapia
Rede
Tantra
Utopia

Autores citados:
Francis Bacon
Freud
Ivan Illich
Michel Bosquet
Platão
Taine

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