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A Dor Que Se Faz Dentro

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , , , | Posted on 17:43


«Todos os fins são dolorosos. Todos sem excepção. Não há substitutos para a dor, seja ela qual for. Uns podem lidar melhor com ela, do que outros, e isso não implica que sejam fortes. Os que vão adiante, sem dor e com desprezo total e rindo-se das atrocidades que fazem, ou daqueles que ficam pelo caminho, são meros psicopatas (como é moda ser referido pela psicologia moderna). 

Todos os fins são dolorosos. Desde o fim de um amor, à morte de um ente próximo. Tudo aquilo que é preponderante e vital na vida, carrega sempre um preço: a dor. A dor, não tem contratos, ela é senhora do seu tempo, e é quem decidirá os termos da sua finitude.  Nessa medida, não adianta nossos jogos para tapá-la, porque tem um comportamento de Lobo vestido de Cordeiro. Há sempre uma hora que ela tira a máscara e grita das profundezas.

Um dia, toda a dor, se tornará tristeza. Um dia, muito tempo depois, ela renascerá numa saudade.»


NãoSouEuéaOutra in «Cadernos Escorpiónicos»



PREDADORES

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , , , , , | Posted on 21:49

"Predadores"


Género: Análise
Autor: NãoSouEuéaOutra
Ano: 2008
(vasculhando textos escritos, para perceber certas coisas... não se escreve para o escuro!! definitivamente... Deus caminha mais alto que os humanos nos seus ''ditongos'' caminhos e, há quem lhes apanhe o rasto! bendita escrita, que és os olhos da minha Sanidade!! bendito Mestre Urano (planeta transaturnino - astrologia), que atinges o futuro... jamais te enganas, apenas eu me engano humanamente. assim, encontrei este de 2008 no velho blog. minha cabeça era mais centrada... parece que foi esvaziada!! ) 


O que são as palavras?? As palavras deviam ser silenciosas e lidas com o coração. A humanidade não seria, assim, tão desvirtualizada. Mas há muito que se perdeu essa capacidade inata a todos, a telepatia, a empatia para ler nos corações as palavras justas, as palavras da verdade.
Nem todas as palavras são actos, e nem todos os actos são palavras. Com estas palavras, acabo de pensar a palavra Predador. O predador que bate na esposa, e depois pede desculpa e afirma e promete que nunca mais irá beber e nem bater, concorre para a maior das mentiras. A palavra amar que profere, não assenta no acto. Todo e qualquer predador é portador da voraz necessidade de controlo e poder. Há o predador que para obter poder sobre outrem, conduz esse outro ao isolamento de forma dissimulada, e fá-lo por perceber na vítima a fragilidade que a própria não tem consciência. Embora, como é da praxis, o seguro predador reverte a situação, afirmando que é a vitima que se isola. Noutros casos, afirma que a sua conduta é sempre por culpa dela. Ele nunca tem culpa de nada, absolutamente! Obviamente que a construção do poder é praticada de forma tão dissimulada que a vitima não percebe o labirinto alapado do predador.
Importa denunciar que há mecanismos inconscientes que podem ser activados e energizados sobre outra pessoa, através de um certo controlo mental induzido pela força do querer. Algo que o predador consegue fazer, porque sabe da vitima, conhece o estreito caminho da consumação da sua bestialidade. O predador não descansa enquanto não controla a vítima ao máximo na sua acção, e quando o consegue parte para um outro patamar que vai desde toda a bajulação a ofensas psicológicas. Um predador quer o controle da mente e coração do outro, descortinar toda uma vida interior para dessa forma estar no centro da pessoa e desta forma activando todo o poder e com isso a vitima vaza toda a energia que vai alimentando-o. Quando o alimento se torna pouco, ele vai se transformando cada vez mais num animal e persisti em encontrar novos meios de agressão para extorquir a vitima e assim alimentar-se. Forçosamente o predador torna-se mais forte que a vitima, e que por norma se assume como culpada, concorrendo para isso, no vicioso circulo de abusos que aquele sempre anseia exercer.
Um predador é assumidamente perante ele, um predador activo. Ele tem consciência absoluta dos seus actos pela via do coração, embora a sua mente o contradiga, ele assume que não o é. Mas como a mente sem consciência não reconhece a verdade dos seus actos, o círculo vicioso do jogo continuará a dominar todos os pensamentos sem freio. No entanto, há predadores calculistas que exercem a sua natureza complemente cientes daquilo que desejam e como obter.
Todo e qualquer predador é detentor de várias personalidades. Aquela que revela à sociedade fora do seu ambiente, onde a agressão ocorre; aquela que revela perante a vitima; aquela que revela a si mesmo quando a sós. Portanto, a sua natureza intrínseca é dissimulada e a sua capacidade de intricar ainda maior.
De referir que nem todos os predadores são violentos fisicamente, portanto há um grande leque de jogos de poder, cujas violências exercidas são sempre gravosas. Embora, o predador violento físico, englobe regra geral quase todas as outras, e em última instancia o máximo da sua violência, portanto o vértice, é o crime. Daí que não importa qual seja a violência escolhida, ela é sempre uma falta e que coloca o outro numa posição de humilhação.
Geralmente, salvo erro, os predadores se detestam uns aos outros, a não ser quando formam grupos em que a violência é exercida de comum acordo e orientado para uma certa área. Porque o predador silencioso, aquele que age de forma individualista, nunca chama outros. O seu prazer sádico e calculista está em ter ele apenas o controle e escolher a vitima ou vitimas.

Uma amostra de perfis de predadores, não os domésticos:

- aquele que persegue meninas na rua, apenas pela adrenalina que sente ao sentir o pavor da vitima… não vai além disso e apenas goza o prazer do medo do outro.
- aquele que persegue meninas na rua, e se masturba não importando que alguém veja. Regra geral, é raro alguém mover a palha para repreender o predador. Se forem homens, que vejam as acções do dito, perante a vítima, são capazes de mandar umas bocas, como quem vai assistir a uma partida de futebol.
- aquele que escolhe um local previamente estudado e espera determinadas vitimas, para induzi-las à aproximação.
- aquele que escolhe um local mais ou menos isolado, e que por norma passa sempre umas quantas mulheres a determinadas horas e quase nenhum homem, e onde o predador pretende mais que uma simples masturbação a si mesmo.
- aquele que escolhe um local mais ou menos isolado, e que por norma a vitima tenha de caminhar ainda mais para o isolamento espacial, e incita assim a perseguição e que pode inserir em várias categorias, desde agressão, violação; ou apenas a tendência durante a perseguição de exibir os órgãos sexuais num acto continuo masturbatório, cada vez que aquela que é perseguida se apercebe da presença e do jogo do predador.
- aquele que persegue mulheres apenas para entabular conversa de forma sedutora e diplomática, e de seguida surgir uma relação sexual descomprometida em que, segundo o próprio, é do controle da vitima a forma como o quer fazer e o local onde pretende ter a dita relação. Regra geral, quando a vitima cai na cilada, e já no quarto, o jogo vira ao contrário e que pode ter consequências gravosas, não necessariamente assassino, mas abuso psicológico após o acto e ameaça de morte se abrir a boca.

A lista é interminável… mas referindo a esta pequena lista mais suave, na maioria, os predadores são casados e cujos casamentos são estáveis e a capa social que apresentam é de equilíbrio. Portanto, nem todo o predador externo, tem de ser violento no seu lar doméstico ou na sua comunidade de amigos e de trabalho; nem todo o predador que viola meninos ou meninas, tem de violar os seus próprios filhos, como vice-versa.
Mas há uma característica inerente a todos eles, gostam de praticar o sofrimento aos outros; gostam de exercer poder das mais diversas formas. A sua forma de vida em última análise está sob o signo da dominação total sobre um outro Ser. A necessidade deles está acima de tudo, logo torna-se imperioso. Eles têm uma capacidade de interjeição nas suas condutas, que é o de infundir às vítimas um medo que se estende por tempo indefinido, com isso inibindo-as de denunciar os seus crimes.
Muitos predadores são como granadas, cujas cavilhas estão frouxas. Imagine-se a cavilha saltar? Acciona um dispositivo que vai disparar a espoleta e que por sua vez incendeia e com isso detona a carga e por fim rebenta… Buuummmm!!! A violência doméstica está cheia de granadas cujas cavilhas estão bem soltas!!


Comentários:

São cavilhas que doem…nunca mais estanca a pele que era virgem…
Muito triste P.
Triste…
Cintia Thomé

érola, para mim os predadores posso considerá-los todos assassinos…pois o mal que causam à mulheres é mesmo indescritível…
Tratam as mulheres a seu bel prazer, e as exploram como se fossem objetos de brincadeirinha sanguinolenta e perversa….
Quantas jovenzinhas já foram estrupadas por verdadeiros cavalos, e como essas crianças devem ter sofrido à loucura sexual desses doentes mentais….
Analiso um pai, que faça isso com sua própria filha…sem sentir o mínimo de piedade pela sua inocência pelo sangue do seu sangue que lhe corre nas veias…..
Isso me revolta abundantemente….
Todos deveriam ser presos e somente soltos quando sentirem na pele tudo o que fazem nas ruas ou mesmo dentro de seus próprios lares….
Mázinha

gosto de tudo por aqui, porque me arranca do chão da qual penso estar colada, e me atira contra minhas próprias paredes. o importante é pular o muro e enfrentar os cães, e o faz  com audácia intelectual, aqui tudo parece decreto revolucionário.
bjs
e muito prazer. prazer mesmo! Creia. 
Vera

Eu tenho duas Vidas

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , , | Posted on 14:31

Minha Doce Mediunidade, das-me tréguas?

” O meu nome é Ana e o meu maior desejo é conseguir dormir. E ser normal. “.


Mas em vez disso, alguém ou “Alguém” lá em cima decidiu trocar-me as voltas e fazer de mim um mosaico.

As pessoas vêem-me como alguém hiperactivo ( que sou, mas não nesse sentido, porque no meu mundo que poucas pessoas conhecem, nada é “nesse” sentido o que me magoa imenso), dispersa - o que não poderia ser de mais errado, pois eu sou mesmo alguém que só sou feliz a fazer 1000 coisas ao mesmo tempo ,que nada têm que ver umas com as outras, e, mesmo assim fazem sentido some how e como hei-de explicar…. o esforço para parecer ser uma ovelha entre ovelhas quando se é um leão ( não no sentido negativo, estão a ver como é ser eu? que cansativo!) no sentido de se ser diferente, com uma capacidade de observação fora do comum ( porque somos “peixes fora de água”) porque quando se é assim , nós sempre nos sentimos assim ( ora bem isto tudo tem um nexo lá no fundo) - a minha Mãe dizia que eu era “Original” sem perceber lá muito bem o que se passava - e claro, os outros sentem, porque os seres humanos são como rádios: estamos em frequências diferentes, que nos repelem, que nos atraem e por aí diante.

Tenho ouvido com tristeza neste últimos anos em que estou mais exposta publicamente, várias teorias sobre mim: de que sou bipolar, já ouvi dizer que sou viciada em cocaína - oh meus amigos agora até me rio - e muitas, muitas outras coisas.

Tomara eu. Porque as trips que eu tenho, não precisam de nada disso.

Desde há muitos anos. São de  ''combustão espontânea”. E o ” pior”, é que eu olho para cada pessoa que me aponta o dedo com essas acusações e sei o que comeu, consumiu nos últimos dois meses e como vai acabar o seu casamento.

Se é violenta, quais são os seus fetiches, os seus pontos fortes, fracos, os seus maneirismos, se está depressiva, o que pensa - sim. sim.- o que se sente e o pior é que eu sinto isso também, gostando dela ou não o que não me agrada, pois é um terrível pau de dois bicos, pois ainda não sou dotada de um vigoroso estado de santidade perante pessoas que me fizeram mal…

Já me ocorreu, várias vezes, passar na rua por alguém e saber que é X pessoa da conversa do jantar do outro dia.

Depois a parte da morte. O 6º sentido ao qual já não há mais que fugir. O cheiro.

Uns pressentem a Morte de muitas formas, eu, já , creio que da mais rara: o olfacto.

E nisto, tenho (alguma das poucas coisas) que agradecer ao meu Pai, JManes, que assistiu desde os meus 20 e poucos anos desde que a 1a pessoa a , quem infelizmente, isso aconteceu, foi à minha avó Rosa.

Grande ajuda me deu o meu sempre presente querido Manuel Domingos, a entender o que se passava comigo.

Porque depois vinha a pergunta das pessoas a quem confidenciava: como é cheirar a morte? e pior: as doenças, os cancros.

Cheirar a morte, a doença, não tem nada de encantador. E não é preciso estar perto de alguém. Podemos ver alguém na tv e saber simplesmente. “este está a morrer”. diz-se. ou penso. ou sei.

Mas presencialmente, é como cair num poço cheio de àgua parada pesada como chumbo. Tão simples como isso. Por mais que queira, é só isto.

Depois , as doenças. O padrão morte.

Não é nada agradável, estarmos perto de alguém que não sabemos estar doente, mas tem, lembro-me , por ex, uma doença tropical, e só de estar perto dele, passar a vida a correr em direcção à casa de banho com vontade de vomitar ,tal é o cheiro de carne putrefacta.

Depois, Eu não vejo pessoas mortas.

Mas sinto-as.

Sinto , sobretudo, as vivas, os estados de alma.

Sinto, os acidentes plasmados e desato a ficar nauseada, e digo vai morrer alguém aqui, mas afinal já morreu ou vice versa, mas o Tempo - que é tão indefinido lá em cima , tem vindo a afinar-se, nos ” insights”… como queiram, porque nunca quis ser especialista de expressões do que sou, nem porque sou.

E depois, a parte lovely.

A parte que nunca pára de trabalhar. Das pessoas que constantemente me dizem ” nunca ninguém me compreendeu assim”.

Obrigada, que eu sei.

Não é compreensão, é como ter duas almas na minha só, dois corações na minha cabeça , ver uma pessoa à distância , saber e sentir e antever o que ela diz- bem podem culpar o Mercúrio na I em Peixes pela so called ” mediunidade”- mas o que se passa é que eu não paro de trabalhar ( verdadeiramente ), enquanto os outros se vão embora, porreiros da vida, aliviados e eu, fico energeticamente exausta.

*Um episódio giro, foi que em 2011- estava tão cansada da minha cabeça- achava eu que era a parte mental, pq isto é tudo um processo diário de conhecimento e ao mesmo tempo de negação de um dom, porque toda a gente quer ser normal, acreditem, Mesmo!…. – Porque, verdadeiramente quem o tem, não o acha agradável nem lírico, nem bom de dizer ao mundo, nem fácil de gerir.

Os namorados fogem em sprint e as mais próximas pessoas assustam-se , confundem inteligência ou espionagem com um dom tão natural como ter olhos verdes. - adiante, estava tão exausta, porque de noite não há sonhos comuns, nada é comum e já vamos ao resto - que decidi agendar uma lipoaspiração para dormir.

O resultado? - Por isso e por outros motivos é que me interesso tanto pelo estudo de estados de consciência: durante as 4h que estive sob anestesia geral, a única coisa que vi, foram os meus próprios textos, com letras diante da minha cabeça. typing durante quatro horas. Acordei, exausta.

Que depois, como sempre, como em toda boa escrita mediúnica, não pude descansar enquanto não escrevi. Ou como digo, quando fiz o download.

Next: Relatos de OBE’s. OUT of Body Experience. – Tive a minha 1a aos 28 anos.

Sempre gozei com os relatos da Shirley Maclaine muito antes de isto me acontecer. Os cordões dourados, as visões, os xiripitis e bláblá. http://shirleymaclaine.com/

Eu, não tive nada disso. Acordei um dia, voltei a adormecer, comecei a sentir a pulsação e a respiração pesadas , tão pesados, e o corpo tão morto, que senti que já não estava “lá”.

Não vi luzes, cordões, nada. Preferia ter visto. Porque ,andei a passear no escuro, algures num estado profundo não sei por onde- se isso é a Morte, é um relaxamento bestial mas consciente, e dei por mim a tentar entrar no meu corpo.

Só que não conseguia.

Se alguém acha isto fascinante, eu troco de lugar. É terrivelmente assustador.

Cada vez que houve um episódio destes, o Manuel Domingos, desde os meus 20 e tal acompanhou-me.

As OBE’s continuam com mais frequência. Se são mesmo OBE’s, não sei. Porque não vejo cordões como a Shirley e gostava de ver, já agora.

Porque sinto as emoções e os pensamentos de uma pessoa à distância.

Porque está na altura de assumir esta coisa, porque talvez haja outros como eu.

Porque não é agradável.

Porque já conheci um ou dois como eu que também não começaram por se sentir muito abençoados com estes “artefactos” divinos.

E porque vejo tanta, mas tanta gente a fazer cursos de iniciação ao Reiki, viagens astrais, a mexer com coisas que não devem, ou são tão desnecessárias, a pedir dons que se, calhar, era tão melhor estarem inscritos num Banco do Tempo a ajudarem realmente alguém com os dons que já têm - que serão fabulosos e não se dão conta! - como fazerem muffins - estão a ver o drama?

Eu,não sei fazer muffins e era um dom que adorava ter e que alguém, lá fora terá… e estou inscrita!… e não tenho novidades!:(((

Por isso, se eu hoje, ao fim de 20 anos decidi dizer ao mundo que gostava que me ensinassem a fazer muffins e que esse sim, é um dom glorioso em vez do meu, que faz correr supostos namorados em sprints e tenho trips monumentais sem precisar de fármacos, mas tenho essa fama que me deixa tristíssima. Porque não é a vossa vez?

Porque não, avançarem cada um de vós, com o dom que têm?

Se eu deixei de ter vergonha e passei mesmo a ser quem sou?

De qualquer forma, senão souberem fazer muffins, eu saberei logo…;)

Ana

Retirado do Blog EUTENHODUASVIDAS

Writing - José Saramago

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , , , | Posted on 09:02

Eu, NãoSouEuéaOutra, penso, '' O que diria, José Saramago, hoje, sobre estes tempos e estas mudanças abruptas e estes engajamentos, engaiolamentos que estamos todos a viver?? Foi um homem com um talento extraordinário para a escrita... afinal, ganhou o prémio Nobel da Literatura e concerteza não foi pelo saber escrever apenas... é um homem sem tempo e as palavras escritas estão aí para as ditar!!  A Língua Portuguesa é difícil. Eu que nunca tive talento ou aptidão para a disciplina de português... e por isso, reconheço na sua escrita esta particularidade muito bem expressa. A linguagem escrita, de Saramago, está mergulhada em pérolas, e daí a extrema dificuldade em ler as frases, um livro. É preciso concentração e gostar de palavras, e também gostar do que ele escreve... de uma outra forma, estamos condenados a deixar o livro sobre a cabeceira e os beiços pendidos. 

Confesso, que poderia-se  aprender e apreender a escrever o português, lendo-o. Mas, lamentavelmente, estamos quase todos, dotados para a facilidade e uma preguiça e por isso, não há educação!! À excepção de certos indivíduos que nasceram já com o talento para a Linguagem escrita e verbalizada, que não precisam muito de leituras e de Saramagos... 

Eu tenho pena, de não saber escrever nos dois dominios da condição humana, da mente e do coração. Porque para se escrever, é preciso escrever bem, dominar a linguagem, e depois, é preciso dar/preencher/emanar, a essa mesma escrita,  a voz do coração, diria que, de uma certa emanação espirituosa. Porque só assim, se Humaniza as palavras numa dimensão que atinge a consciência.

É nestas alturas, que estes homens e também mulheres deviam estar vivos, porque deles e delas vêm aquilo que se poderia chamar de «respostas», e que não são forjadas nos almanaques, mas desenterradas do pântano fundo onde as coisas realmente estão encarceradas. 
«Está calado, oh, bico», diriam alguns, em especial àqueles,  também  com profundidade de esclarecimento,  ainda vivos, e que não lhes é permitido terem a força... ninguém lhes liga...  somente após a morte, quando o morto e mais o esqueleto já não podem se defender e acima de tudo, dar mais Conhecimento, portanto consciência, à Humanidade. Assim, continuamos mergulhados em Trevas e a caminho de um colapso Humanitário.

Os grandes Ídolos de facto, são Pessoas Mortas, porque elas já não podem argumentar, opinar, discursar e analisar; fazerem revoluções que mudam o mundo... estão lá no fundo da terra, e no fundo do universo - não se sabe bem onde, mas estão em contínua respiração, porque isso é coisa do Universo e emprestada à Vida na Terra -. 
Lamento que as coisas do espírito tenham-se afundado no rescaldo desta desorganização global, e que ainda nem um Cristo tenha ressuscitado... pois dizem que, agora, o Deus está dentro de ti e que deves descobri-lo... é verdade (!) mas, a Humanidade que se vive projectando, precisa de uma Entidade que a faça mudar, que a guie e oriente, porque por ela, e devido à tal diversidade, acaba por se esmagar e andar sempre em contra mão! Individuos entregue  a si mesmos e em grupos, não  acabam bem. Para quando um Emissário?  ''

Agora, deixo-vos com José Saramago... porque já estou a empestar a página com as minhas «elucubrações» dispersas, ou melhor, do tipo ''mixed media''!!...



"Estamos afundados na merda do mundo e não se pode ser otimista. O otimista, ou é estúpido, ou insensível ou milionário", disse em dezembro de 2008, durante apresentação em Madri de "As pequenas memórias"...


As Mulheres São Mais Fortes. Para Começar, gosto das mulheres. Acho que elas são mais fortes, mais sensíveis e que têm mais bom senso que os homens. Nem todas as mulheres do mundo são assim, mas digamos que é mais fácil encontrar qualidades humanas nelas do que no género masculino. Todos os poderes políticos, económicos, militares são assunto de homens. Durante séculos, a mulher teve de pedir autorização ao seu marido ou ao seu pai para fazer fosse o que fosse. Como é que pudemos viver assim tanto tempo condenando metade da humanidade à subordinação e à humilhação?

José Saramago, in 'L'Orient le Jour (2007)'

"A violência desde sempre exercida sobre a mulher encontrou no cárcere em que se transformou o lugar de coabitação (neguemo-nos a chamar-lhe lar) o espaço por excelência para a humilhação diária, para o espancamento habitual, para a crueldade psicológica como instrumento de domínio. É o problema das mulheres, diz-se, e isso não é verdade. O problema é dos homens, do egoísmo dos homens, do doentio sentimento possessivo dos homens, da poltronaria dos homens, essa miserável cobardia que os autoriza a usar a força contra um ser fisicamente mais débil e a quem foi reduzida sistematicamente a capacidade de resistência psíquica.''

in DN - 2009 - JOSÉ SARAMAGO 


“O personagem central da história [Ensaio sobre a Cegueira] é outra vez uma mulher. Suponho que às minhas leitoras lhes agradará que isto seja uma constante, porque verdadeiramente, como personagens, quem sempre salva os meus livros são as mulheres. Não é que os homens não sejam pessoas boas, que o são e podem sê-lo, mas ao lado delas aparecem sempre como pequenos aprendizes. Quero clarificar algo que já assinalei antes, a propósito do facto de não se encontrarem heróis nos meus romances, apenas gente normal, que vive vidas normais, embora no caso de Baltasar e Blimunda eles assistam com naturalidade a certos prodígios. Reflito e escrevo sobre pessoas comuns porque essa é a gente que conheço. É provável que as mulheres que invento não existam, talvez não sejam mais do que projetos, talvez me seja mais fácil imaginar um projeto de mulher que um projeto de homem. Em qualquer caso, e para não fugir à questão, acrescentarei que o facto de ter sido criado por mulheres, de viver e crescer sempre entre mulheres, pressupôs, em definitivo, ter aprendido com elas o que efetivamente é benéfico, não no sentido utilitário, mas em profundidade e humanismo. Devo isto às mulheres e, por isso, assim fica refletido nos meus livros.” 

Ensaio sobre a Cegueira - (pp. 34-35)


Acabo de ver nos noticiários da televisão manifestações de mulheres em todo o mundo e pergunto-me uma vez mais que desgraçado planeta é este em que ainda metade da população tem que sair à rua para reivindicar o que para todos já deveria ser óbvio…

Chegam-me informações oficiais de solenes instituições que dizem que pelo mesmo trabalho a mulher cobra dezasseis por cento menos, e seguramente esta cifra está falseada para evitar a vergonha de uma diferença ainda maior. Dizem que os conselhos de administração funcionam melhor quando são compostos por mulheres, mas os governos não se atrevem a recomendar que quarenta por cento, já não digamos cinquenta, sejam compostos por mulheres, ainda que, quando chega o colapso, como na Islândia, chamem mulheres para dirigir a vida pública e a banca. Dizem que para evitar a corrupção na organização do trânsito em Lima vão colocar guardas mulheres, porque se comprovou que nem se deixam subornar nem pedem coimas. Sabemos que a sociedade não funcionaria sem o trabalho das mulheres, e que sem a conversação das mulheres, como escrevi há algum tempo, o planeta sairia da sua órbita, nem a casa nem quem nelas habita teriam a qualidade humana que as mulheres colocam, enquanto os homens passam sem ver, ou, vendo, não se dão conta de que isto é coisa de dois e que o modelo masculino já não serve. Continuo vendo manifestações de mulheres na rua. Elas sabem o que querem, isto é, não ser humilhadas, coisificadas, desprezadas, assassinadas. Querem ser avaliadas pelo seu trabalho e não pelo acidental de cada dia.

Dizem que as minhas melhores personagens são mulheres e creio que têm razão. Às vezes penso que as mulheres que descrevi são propostas que eu mesmo quereria seguir. Talvez sejam só exemplos, talvez não existam, mas de uma coisa estou seguro: com elas o caos não se teria instalado neste mundo porque sempre conheceram a dimensão do humano”.

José Saramago, O Caderno I, 8 de março de 2009.

 Há uma regra fundamental quando se vive como nós estamos a viver – em sociedade, porque somos uns animais gregários – que é simplesmente não calar. Não calar! Que isso possa custar em comunidades várias a perda de emprego ou más interpretações já o sabemos, mas também não estamos aqui para agradar a toda a gente. Primeiro, porque é impossível, e segundo, porque se a consciência nos diz que o caminho é este então sigamo-lo e quanto às consequências logo veremos.

José Saramago, in 'Uma Longa Viagem com José Saramago'

Please Forgive Me PERDOA-ME

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , , , , | Posted on 21:58




Perdão PERDÃO perdão PERDÃO


[ Sentara-se à soleira da porta. Sentira-se tão cansada. O tempo passava como se fosse irreal. Pusera-se a tricotar um pequeno cachecol com cachos de uvas penduradas. Tricotar, permitia-lhe meditar. Entrava em ressonância com qualquer coisa desconhecida, e sempre, tão íntima. Por vezes um medo lhe invadia a mente... era o desconhecido, esse que habita à porta de nós mesmos e que está sempre espreitando os nossos olhos.
 Nesses momentos de profunda ''tricotagem'', há um voo de passagem que  chega e quase sempre  incomoda. É preciso estarmos preparados e, a maioria das vezes, nunca estamos. No reino da mente, há milhares de discursos, de invasões, ou, de vozes. Ela é como um comboio sobre linhas, contínuo é o seu movimento... diria-se que, a mente,  sofre de ''doença crónica do pensar''! Quanto mais a reprimimos, mais ela ladra... a sua natureza, é de criar cada vez mais pensamentos e gerar todas as formas de emoção!

Nesse dia, mal sentara-se e começara a tricotar... um pensamento saíra voando do fundo da Mente e logo, se agregara à emoção, criando uma vibração sentida.  Dissera para si mesma: '' e se alguém, ainda vivo, nesta terra esteja amando-a em silencio? Portanto, sofrendo por isso.''...  Não um amor de família, de amizade... e sim, um amor no sentido de relacionamento afectivo - amoroso. 

Continuara a dizer para si mesma, '' e se alguém, nesta terra à beira-mar plantado, estiver amando-me em segredo, por tantas razões e por isso, manter-se em silencio, por outras tantas razões? Oh que dor mais insuportável!!! Se existes, oh Alma, que me amas assim tanto... quero pedir-te perdão PERDÃO por me amares assim tão silenciosamente!! Só de pensar nisso, dói-me toda a carne do corpo... e um peso toma-me a alma!! Perdoa-me PERDOA-ME a carga desse amor que carregas por mim e que eu não sei.
Amar em silencio, sem ser correspondido, ou poder confessar tal amor, deve ser um sofrimento tremendo, uma solidão sem fundo... como são os sofrimentos de quem ama e deixou de ser amado!!! 


O Amor entre os Humanos, em especial os afectivos-amorosos, são um terreno fértil de desencontros e encontros e, o palco de experiências dolorosas.
 
Criatura, oh criatura, PERDOA-ME esse sofrimento que te causo na solidão de não poderes abrir a tua boca... Não gostaria de amar alguém em silencio como tu, porque não suportaria ter o coração preso sem uma resposta. Não importa quem sejas, onde estejas... PERDOA-ME o que te faço sentir!!! PERDOA-ME se sentes dor. PERDOA-ME!!!????

Uma Alma não amada, que não se sente amada, é uma alma presa... PERDOA-ME!!! POR FAVOR, PERDOA-ME. Ajuda-me a abrir também o meu coração ao perdão de saber  perdoar-te e perdoar-me e perdoar os desígnios indiscretos da vida!!

No entanto, se o Amor que sentes por mim, é INSPIRAÇÃO e VIDA... abençoada é a vida que te ilumina... porque esse Amor liberta-te e liberta-me!! 

Se alguém que também, eu tivesse deixado, e continue a amar-me com o desejo de ainda ter-me, quando já não amo e não consegue desapegar...  também peço PERDÃO... todo o PERDÃO do Universo, e vou mais longe...  PEÇO às FORÇAS  MAIORES DA VIDA, que conduzam ao seu caminho, alguém capaz de neutralizar e transformar todo o amor dessa pessoa por mim, e que a deixe fluir num novo encontro de amor... mais pleno que aquele que viveu comigo. Assim, poderá também libertar a minha própria alma e amar também mais!!!  Porque as almas, precisam de se libertar para serem novamente amadas e amarem... só assim, a Humanidade caminhará para a evolução!!! PERDOEM-ME... por favor?? POR FAVOR, PERDOEM-ME???!!!...''

Quando parara de tricotar, já o sol havia descido no céu. Os pensamentos surreais deixaram-na surpresa... mas a maior surpresa, foi constar que todo o cachecol estava escrito com as palavras PERDÃO... cada uva tinha uma palavra com PERDOA-ME. ]



NãoSouEuéaOutra in « Aquilo que desconhecemos em nós, o PERDÃO. »

Alone ALONEEEEE

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , | Posted on 14:39

Tilda Swinton

" – solidões imperfeitas – "


Género: Poesia/escrita criativa

Autora:  NãoSouEuéaOutra

escrito a, 6 de outubro de 2008
  
 
«As estradas são estreitas,
Os caminhos são longos
E o tempo será sempre curto.»


… Os dedos são surdos à essência da água
O concavo da mão, também…
As linhas que a atravessam
São como regatos, despejam-na.

Não há homem que sobreviva
Se não vencer a si mesmo,
Como não há mulher que sobreviva
Se não amar a si mesma.

A existência tem estes dois pólos,
Interpenetram-se, mas estão sempre sozinhos
E a viagem, termina-se lá onde a morte acolhe
Para a vida que não se sabe, uni-los …


 ……


Neste mundo andamos como loucos, embora garantimos a quem nos ouça, que não é verdade. Somos os seres mais solitários à superfície da terra. Dizem que nascemos sozinhos, e que daqui partiremos sozinhos. Mas nesta existência, fazemos daqueles que nos rodeiam a nossa âncora para nos salvarmos dessa solidão lenta que cresce na nervura das nossas profundezas, para que sejamos compensados naquele momento crucial onde não nos valerá qualquer companhia. Porventura, a velha Senhora sentada na soleira da sua porta diria: «Quanta solidão está adormecida nos nossos corações e que não ousamos ouvir.» Concordo com ela! Há um lugar dentro de nós que nunca pode ser saciado por nenhuma alma humana, e entre nós, há quem veja esse lugar e sabe que aí ninguém pode chegar e muito menos nada de concreto, realizável materialmente pode acalentar. Não é um lugar com estofos de veludo ou com plumas; antes é um lugar árido, frio que precisa de ser alimentado por algo que não tem nome.

Preferimos quase todos nós, viver à superfície. Contemplar somente o botão da rosa. É muito mais fácil, do que darmos ao trabalho de conhecer a raiz que é o lugar de onde parte a rosa. O segredo da rosa está na raiz, diz a velha Senhora. Para conhecer a raiz é preciso chafurdar no húmus da terra, é preciso descer ao subterrâneo e estudar a estrutura que lhe dá origem. Um fotógrafo, por exemplo, interessa-lhe a obra já feita, o esplendor da rosa, mas nunca questiona a raiz e nem a fotografa. É feia, é nojenta. Ninguém quer ver o sujo, que afinal é a quinta-essência onde a obra acontece. A rosa é só a parca ilusão da maravilha que antecedeu e que ninguém percebeu. Grande é o sábio que antes de apreciar a rosa, aprecia a sua raiz. A verdadeira beleza está contida nos bastidores, e é lá que deve permanecer e somente se deve oferecer ao mundo um pequeno espirro de perfume. Porque tudo o que é belo, fere os olhos e por norma os homens ambicionam possui-la ao primeiro vislumbre e por isso matam. Porque todos cortam a mais bela rosa de um manto de jardins? Porque ninguém se atreve arrancar a raiz e, semeá-la no seu próprio jardim e ignorar a rosa? Uma rosa arrancada, tem a duração de um segundo e a felicidade é tão imperfeita que se desfaz. O homem para sentir a felicidade, rouba-a à rosa e porque não consegue contemplar e nem perceber o verdadeiro segredo da rosa, morre com ela. Ele não entende que de uma rosa, não nasce outra rosa, mas alimenta-se da ilusão que sim. A riqueza do ouro, não está no ouro, mas sim na terra que o gera; mais uma vez o homem fica seduzido e possuído pelo brilho e tenta destruir, neste caso a terra… maltratando-a com a sua avidez que geralmente é sempre avara. Nunca produz nada!!! Pepita de ouro, rosa de aroma… duas metáforas, dois níveis e o homem sempre se desviando da sua grandeza pela avareza. Daí, a estrada é estreita e o caminho é longo.

/ – / Não me confundam como uma louca ao escrever isto. E, desculpem-me, mas não sei escrever como esses eruditos que tudo sabem e tudo entendem. Eu, apenas sei o que ouço nos embrulhaditos do meu cérebro e raras vezes questiono o que por ali ouço. Costumo dizer que sou apenas instrumento imperfeito de uma trovada de hemisféricos.  / – /


Alguns comentários à época do texto:

Não é louca não Ninha… você é realista demais…já estamos ficando mesmo cansados de ver as coisas feitas, somos acomodados, não escarafunchamos o fundo do poço para pesquisar de onde chegam-nos as bactérias…temos na mente somente a corrida do tempo, estamos nos esquecendo da beleza interior, das realidades internas….
Infelizmente…
É realmente dolorosa essa realidade….
Vc vê onde não alcançamos…sua mente se abre ao léu e capta fatos dentro da sua nata inteligência…
Belo..ninha;……mas doloroso…..
Ma


A beleza está nos líquidos, finos, densos, entranhas…
O Amor brota vigoroso, esplendor
Mas vem a mão do homem
Trincam-se finais belos
A púrpura Rosa apenas deixa a luz
no coração de quem ama e vai…destruída, despetalada, morta…
em carne e ossos…mas Luz….Luz Diamante…Amor…
Cintia



MARRIAGE

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , , , | Posted on 14:09

via distinguished-mind

« quando era pequenina, durante a escola primária... costumava ouvir dos mais velhos uma pergunta que era muito recorrente e dirigida a mim, '' quando é que casas? ''. veja-se, era uma criança e colocarem-me esta pergunta, soava-me a algo bastante estranho. inclusive, desde criança, toda a família foi compondo o meu enxoval. julgo que devo ter algumas preciosidades antigas. nunca mexi no baú onde essas coisas estão. 

sempre que me perguntavam sobre essa questão, a minha resposta era decidida e rebelde. respondia, « Não. Não. Porquê, perguntam-me. Vou responder. Uma pessoa nasce, são os pais a mandar em nós. Não podemos fazer nada. Sempre controlados. Depois, bem.. vem a escola. É a escola a mandar em nós. Temos que aprender tudo o que eles querem. A seguir, vem o Patrão. Passa a ser ele a mandar. Por fim, vem o marido, e é ele a mandar. Tanta gente a mandar. Que peso!!! Não, não e não. Não me caso! Só depois dos trinta anos, e se calhar!! »

ficava tudo a olhar para mim. Como é que eu falava dessa forma e com tanta certeza. Onde aprendia aquilo? Quem é que tinha dito aquilo? até hoje, eu não sei bem porque falava daquela forma, e ninguém me tinha dito alguma coisa... mas falava e falava irritada. ficava com um veneno, que nem sabia de onde vinha. entrava-me pelos pés e invadia o corpo todo. eu era muito observadora, ficava sentada e  a olhar com toda a atenção. a surdez neurossensorial bilateral do qual era portadora e o sofrimento físico que isso me causava, porque o sangue e as dores nos ouvidos nunca mais estancavam nem à conta de toneladas de antibióticos. talvez fosse isso que me tivesse dado outra forma de ver as coisas... até a própria vida, tentava reduzir os sons dos ouvidos para não ouvir tanta asneira da boca das pessoas e os seus julgamentos e idéias feitas... ''dizendo uma coisa e fazendo outra!''.
será que mudei sobre esse pensamento? bem.... deixa cá ver!! ficamos para outro dia. »

Série Mulheres - Maria de Lurdes de Sá Teixeira

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , , , , , | Posted on 16:27





« Foi na linda manhã de 1 de Junho do ano corrente, prestes a sumir-se nos umbrais do  século XX, que eu fui largada na pista da Escola Militar de Aviação. Semelhante à avezita que subitamente se vê liberta de um cativeiro de longos meses, entre as grades da sua prisão, e que voa, voa, em pleno ar, respirando sofregamente a sua pureza na imensidade do espaço infinito, análoga sensação senti, ao ver abrirem-se para mim, de par em  par, as portas do AR, e, sozinha, num à vontade, alegre e confiante, a mão firme na “manche”, numa ânsia louca de subir, voei, voei enfim…»

(...) Em entrevista ao grande jornal de domingo, o Actualidades, Maria de Lourdes regista que foi hercúlea a batalha travada para ir ao encontro da sua vocação. Assim, obstáculos de natureza vária que teve de ultrapassar. Desde logo, a preocupação dos familiares mais próximos, tentando dissuadi-la de seguir um caminho que não se coadunava com as expectativas sociais em relação a uma adolescente oriunda da média-alta burguesia. 

Na verdade, seu pai, dotado de formação académica superior, opor-se-ia a tais “voos”, vindo a ceder pouco mais tarde, já que os seus conhecimentos científicos, enquanto médico, o coagiam a dar primazia à saúde de Maria de Lourdes, a qual ao ser impedida de ingressar no treino, somatizou a sua frustração entrando num processo de debilidade física. 

A experiência do Dr. Afonso Henrique Botelho de Sá Teixeira falou mais alto do que as convenções sociais. É sua filha quem o reconhece: – Entristecia-me muito tanta oposição. Porquê? Que mal havia em querer voar? Parece que emagreci demais. Os meus chegaram a recear pela minha saúde. O médico surgiu na pessoa do pai, que me prometeu, que se eu me alimentasse e não me entristecesse, - o que era inconveniente para a minha saúde – procuraria obter a minha admissão na Escola. – 

Cumpriu 4 . Col Estúdio Mário Novais/Biblioteca de Arte/FCG Da atitude de seu pai pode ser dito: de opositor a cooperante foi um passo. À época, a escola de aviação era militar e o ingresso feminino vedado, pelo que as diligências do médico militar foram decisivas. A aspiração de Maria de Lourdes não deve ser vista como um capricho, mas como uma vocação. Só esta leva alguém a empenhar-se em aprender, canalizando todo o seu tempo e energia para o treino físico e mental, viabilizar o exercício da vontade para enfrentar obstáculos e aceitar os inevitáveis sacrifícios.

 Apelidando-a de “verdadeiramente desportiva” o jornal O Globo dirá a seu respeito: Apenas por espírito desportivo, por amor à aviação – porque sim – fez o seu curso de aviadora, a despeito da doença que a afligiu durante ele, das naturais contrariedades que sofreu das oposições e possivelmente da maledicência. 

Admirável rapariga essa, que resgatou com a sua galhardia séculos de mazombice freirática A determinação e o entusiasmo da instruenda contagiaram o seu mestre, que a ela dedicou todo o seu tempo e saber. Só a convergência destes elementos possibilita a eficaz aliança, da qual a nossa aviadora tem consciência ao afirmar: Devido ao esforço, solicitude e muita proficiência do meu instrutor, capitão Craveiro Lopes, e à extrema gentileza de todos os oficiais da Escola, aliados à minha grande força de vontade e à minha ambição de todos os dias, consegui finalmente ultimar o curso no dia 6 deste mês.



No link que se segue, poderá ler na integra o texto - formato PDF 

Lonely Days

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , , | Posted on 21:01



« tem qualquer coisa na cidade. qualquer coisa inexprimível. tudo o que faz é assobiar e rodopiar. há quem diga que são centopeias a caminhar; há quem diga que são hienas à espera. todos os rumores indicam que são candeeiros perdidos no tempo, na memória dos amores que já vivenciaram. nem Vasco Santana* teria admirado tanto um candeeiro de rua, como este o admirou! »


* considerado um dos melhores actores portugueses da sua geração. 

26 de Dezembro de 2011


Auto-biografia

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , | Posted on 16:28

  Luis Beltrán - fotografia

Estou parada a olhar o papel. Há vários minutos. Já nem sei, ao certo, quanto tempo se passou. Perdi-me. O assunto é delicado. Não é um tema que se escreva como quem escreve poemas de amor ou até poemas dramáticos! Quero escrever-vos sobre um estado da condição humana que é preciso coragem para praticá-lo. Primeiro, é preciso um motivo e segundo, é preciso força para executá-lo. É o insuportável para lá do limite que faz executar algo que destrua a sensação que aniquila a existência interior do sujeito.
A verdade é que ninguém ouve o grito deste tipo de pessoa. Eu ouvi, e era tão menina e impotente, quanto ignorante acerca da alma e do coração dos homens e os seus desejos mais perversos e assombrosos. Participei na dança, vi-me naqueles limites que devem ser protegidos. Há testemunhas – crianças silenciosas que absorvem cada minuto; não gesticulam, apenas olham paralisadas e gravam tudo ao pormenor numa mudez colossal. Elas colocam tudo numa caixa e guardam silenciosas sem fazer uma pergunta durante anos. Um dia, acorda-se e pergunta-se: “ porquê eu? Why me? Pourquoi moi.” Como e de onde isto veio? Fica-se suspenso!!


Então começa assim:

Não sei o nome dele. Nem me lembro se algum dia o soube. Mas ele existia. Sem nome ou com nome, ele existia. Ele existiu na minha vida. Participou dela à distância, ou seja, aproximou-se o suficiente para poder expressar os sentimentos pelo olhar. E que sentimentos ele transferiu, a cada vez que pousava sobre os meus olhos!! Arrepio-me de sobremaneira!

Julgo que nasci com uma lente fotográfica e câmara de filmar nos olhos. Não posso deixar de ver as fotografias de forma nítida na mente. Há coisas que apenas lembro do pescoço para baixo ou cintura, e isso se deve à minha estatura física de criança – menina. Até sob este prisma fotografei os retalhos.

O Sem Nome, homem recém-chegado ao sitio ou localidade onde vivíamos. Veio sozinho e ninguém sabia a sua origem. Pediu emprego a um familiar meu. Dedicava a sua vida ao trabalho. Havia liberdade e ele não tinha muito que fazer. Foi-lhe oferecido um anexo à casa para ter o seu espaço e tinha um ordenado. Julgo que foi a compaixão do meu tio que acolheu o homem e por conseguinte lhe ofereceu trabalho. Veio para um sítio diferente (talvez, não sei!), não conhecia ninguém. Nunca o vi confraternizando com alguém. Sempre o vi sozinho. Algumas vezes o vi sentado a olhar o horizonte, outras, no tasco a beber um copo de vinho e a maior parte das vezes a fazer o trabalho para o qual foi destinado. Observava-o. Ele era estranho e olhava estranho.
Quanto às mulheres que me rodeavam, senti o medo delas por aquele homem. Ele era calado e ninguém sabia o seu passado. Não tinha família. Minha própria mãe reagia estranhamente. Eu limitava-me a fotografar as impressões ou modos delas reagirem. O Sem Nome vestia-se de negro. Calças pretas, camisa preta e chapéu preto na cabeça. A figura que mais se assemelha fisicamente com ele é o Vitorino, o cantor. Há dias estávamos os dois às compras no mesmo sítio e foi uma espécie de inquietação inicial, apenas depois é que percebi que a figura era o Vitorino. Algo se fundiu ali por momentos, mas obviamente que não há alma para comparar e nem densidade… apenas o físico reflectiu aquela longínqua alma, ou nem foi nada disso. Apenas qualquer coisa, assim como a mola que salta do sitio. Prefiro raciocinar deste modo.

Era menina e foi pelas alturas que entrei para a escola primária quando ocorreu o que me levou a escrever esta biografia. Não encontrei ainda uma forma correcta de escrevê-la. Este homem delegou-me uma responsabilidade psicológica, de contrário, não escreveria sobre ela. Levei anos sem olhar para isto, o sono da bela adormecida... contudo a vida tratou de sepultar o morto - vivo aqui dentro e com uma voz própria… o facto é que o Sem Nome, por demasiado tempo concentrou a sua atenção no meu ser menina. Como? Através dos olhos, o olhar. Eles falavam imenso!! Tanto... Os olhos  escuros como a noite mais profunda me perseguiam cada vez que passavam por mim e pelos meus. Via-lhe a alma. Um abismo entre montanhas, olhos mergulhados num vale denso onde a luz do sol pouco chegava; um rio negro perdido entre árvores. Só agora posso definir aquele olhar, o olhar da desolação profunda da existência. Um ser completamente preso no limbo. Ausência profunda de amor, um mergulho pesado na solidão da vida. Contudo ali, existia uma maldade que ainda não compreendi, como vão poder perceber.Podia ter escolhido outra criança.

Eu adorava dançar. O meu tempo era passado a dançar. Dançava para qualquer pessoa. Dançava sozinha na rua. Tinha aquele bichinho da dança bem presente no corpo. Gostava imenso de rodar a saia e balançar o quadril. Um dia, estava a dançar e ele, o Sem Nome passou. Será a primeira vez que estará tão próximo… demasiado próximo. Aqueles olhos, aquele olhar abissal com que me olhou nos meus… entrei num estado de hipnose, fiquei presa. Senti um medo tão profundo, a invasão do olhar devorou-me a paz e a alegria. Recordo de tremer tanto. Era só negridão a dirigir-se para os meus olhos. Momentos depois ele foi afastando-se na rua, e eu parada a olhar. Assustada. Silenciei-me. Nunca disse o quanto aquele homem me perturbava. Ele jogava comigo através do olhar. Calado e olhando-me directo. Passei a antecipá-lo. Isso provocava-me inquietação. Talvez eu imaginasse demais, por conta da forma como ele olhava. Como criança não percebia a força de olhares tão negros sobre mim.

Fizeram-me um baloiço numa árvore. No cimo da colina em direcção ao lago. A casa tinha um lago. Uma das mais belas vistas. Ali pude assistir aos mais belos nasceres e pores-do-sol. As tonalidades do entardecer primaveril, veranil e outonal eram uma loucura aos sentidos. Eram tão gigantes que os meus braços abertos não conseguiam abraçar. Eu balançava às tardes, às vezes a qualquer hora. Na época do verão, ficava  sentada debaixo da árvore. O baloiço era uma aventura, queria ver até que ponto conseguia elevar-me nele. Cai muitas vezes e, uma vez elevei demais que levei com um susto, e tomei isso como aviso quanto aos meus limites.
Às vezes havia uns piqueniques debaixo da árvore. O Sem Nome costumava passar por aquele lugar a uma distância que permitia saber o que ocorria naquela e debaixo da árvore. Vi-o passar várias vezes quando estava a andar de baloiço. Aquele caminhar lento e às vezes obtuso mas carregado no semblante. Eu não sabia definir o medo, apenas sentia o medo.

Certa manhã levantei-me muito cedo. Quando digo cedo, é mesmo cedo. Abri a porta de casa e sai a correr. Fatalmente a correr. Nem sei bem onde ia com tanta velocidade e porque tive aquele institnto. O sol surgia no horizonte. Todos estavam dentro de casa. Apenas eu sai sem ninguém perceber. Sai louca em direcção à árvore lá em cima. Sai feliz. Recordo-me perfeitamente da alegria e a saltitar. Efusiva ia não sei onde, completamente cega. Preciso notar que estava eléctrica e contente. Mas o que vi? O que iria encontrar, assim sem preparação? O que não se espera na vida encontrar.

O Sem Nome se suicidando. Suicídio por enforcamento. Com uma das cordas do baloiço. Fiquei olhando o homem pendurado na árvore. Depois comecei a berrar. Corri o mais que pude. Minha boca gritava, mãe mãe mãããããeeeeeeee… minha mãe assustadíssima, pergunta-me o que é, e eu quase gaga disse-lhe que tinha um homem pendurado na árvore. O que estás inventando? Qual árvore?- perguntava ela, e eu respondi, a árvore do baloiço. Provoquei uma agitação e, também fui agressivamente afastada de tudo. Para minha protecção, como é normal. Mas eu não entendi assim. Eu queria entender o que estava ocorrendo.  Só ouvi dizer, o homem matou-se. Contudo, consegui fugir do local onde tinha sido aprisionada e voltei ao sitio e pude assistir sem que ninguém desse por mim, a retirada do homem da árvore. Recordo-me perfeitamente do nó, da ferida em volta do pescoço, que estava tão vermelha, como se fosse queimada. O homem debatera-se em agonia, porque a altura da árvore não era muita.
Guardei a imagem dele pendurado, suspenso… também a sua retirada da árvore e colocado no chão. O que recordo depois? O facto de ter sido descoberta a espreitar tudo. Zangaram-se muito comigo e voltei para dentro de casa contrariada e disseram que não podia passar um limite desenhado no espaço exterior da casa, em especial as traseiras. O espaço que dava acesso ao local. Vi-me barata tonta. Irritada e ofendida. Não percebia nada e a memória se apaga.

O lugar do baloiço e árvore deixaram de ser um local de brincadeira e convívio. Nunca mais me aproximei. Nunca houve uma conversa sobre isto, nunca ninguém me perguntou como me sentia. Com o tempo foi ficando sufocado lá no fundo do meu coração de criança-menina.

Muito mais tarde, passei a recordar isto, e cada vez mais com cada pormenor sem fazer esforço, iniciara-se um processo de censura profunda. Os olhos, como que me olhava… tudo tão negro e depois, crueldade… o baloiço e a árvore. Ele determinou que eu não haveria de esquecer os seus olhos… todo nú me olhou e delegou!!!

Tenho a boca nas perguntas... e não acabei de escrever isto!!!



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 Luis Beltrán - fotografia

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