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Das Mulas e dos Orelhudos

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , , | Posted on 09:53






O texto que se segue, foi retirado do Blogue,  Dos Meus Livros de Manuel Cardoso
(source)

Crónica D'orelhudos - Luís Novais (livro gratuito)


Numa atitude inovadora e de enorme coragem, o Luís Novais publicou o seu livro mais recente na Internet, disponível para download gratuito, no seu blogue.
O livro é excelente. Eu tive o privilégio de ler o original antes ainda da publicação e deixo aqui a minha apreciação:
Naquela aldeia não havia governantes porque deles nunca se precisou; até que da cidade veio a Grande Mula e prometeu riqueza; e aquele mundo dividiu-se em orelhudos (os da aldeia) e mulas (os da cidade). As mulas governariam; os orelhudos obedeceriam. E assim se fez para felicidade dos orelhudos e engorda das Mulas.


Este quarto livro de Luís Novais surpreende-nos com uma espécie de literatura fantástica, ou mais propriamente uma sofisticada fábula, fundada sobre a ironia e o escárnio, com grande riqueza de elementos simbólicos, como a magreza das mulas, a relação entre o poder das mulas e os seus adornos, o elemento religioso na figura do Grande Mula, etc., que conferem à narrativa um extraordinário poder crítico. Nada escapa à sátira que, a espaços, lembra Gil Vicente.
Por detrás disto está a falácia da nossa democracia: escolham entre nós, as Mulas! Vocês são livres; podem escolher um de nós! bem como a crítica ao capitalismo: o dinheiro criou o pobre.
Mas o dinheiro (o contado) teria que ser doseado para bem dos orelhudos, mal habituados ao gastar. Uma dieta de contado para acabar com os maus vícios dos orelhudos: assim falou a troika dos reis magos que vieram aconselhar a Mula governadora. Achei fabulosa esta referência à troika sob a forma de reis magos do Oriente. Do Oriente ou do Ocidente, o certo é que Portugal não seria o mesmo sem os Magos quem de vez em quando nos caem do céu. Ou do Inferno.
Mas, gradualmente, eram as mulas a engordar de tal sorte que nem os colarinhos brancos lhes duravam mais que uma semana. E mais uma metáfora: A União; metáfora da união europeia. Aliás, toda a linguagem do livro é metafórica, apelando para elementos simbólicos.
De repente as mulas surgem com uma excelente ideia, com o apoio dos três magos do Oriente: reduzir os pagamentos aos orelhudos que trabalham para a governação :) Nada como um belo plano de empobrecimento! trabalhar para o governo já é um privilégio, portanto é justo que se lhes corte no ordenado.
A mula sonhadora é a excepção: havia uma mula que pensa. Uma mula que pensa, sonha, fala, come e bebe. Uma mula do futuro. A excepção, a mula que a sociedade de mulas nunca admitirá...
Poucos livros se terão escrito com tamanha actualidade: mais um exemplo dessa actualidade: os cientistas vendem rifas a sortear um garrafão de vinho para financiar a investigação, uma vez que o governo deixou de o fazer. Não estaremos muito longe disso.
O empreendedorismo da Mula Sonhadora parece condenado ao fracasso, em terra de mulas pragmáticas :) Mulas do bloco central, diria eu… não se pode agitar as águas…
Alguns pormenores que revelam bem, a actualidade e o sentido crítico deste livro:
- O funcionário encarregado de ouvir as contestações… é surdo. Kafka no seu melhor.
- No entanto, o cientista ganha mais dinheiro jogando bilhar do que fazendo ciência.
- A burocracia com a sua dupla função: dificultar o acesso dos orelhudos aos seus direitos legais e justificar o poder. Kafka no seu melhor, segundo episódio. Mas é mais que isso: a burocracia é uma das principais estratégias para servir plano de empobrecimento.
- O cerne da questão. O problema não se resume à União; o problema existirá sempre, enquanto houver mulas e contado.
- Maria d’Arcada, metáfora da da Fonte, a mulher minhota não podia faltar na revolta dos orelhudos. E a padeira Brites- com mulheres assim não há mula que resista
- E o povo só voltou a ser povo quando queimou os barretes de orelhudos que lhe haviam enfiado.
- Che Guevara ou Vasques Colarinhos; profissão: revolucionário :)
- Um final com um delicioso toque do Padre António Vieira.
Enfim, um livro divertidissimo, actual, crítico e mesmo mordaz.
Ainda por cima... DE BORLA! (pode-se, no entanto, contribuir para as despesas do autor, nos moldes que ele descreve)

No blogue do autor: (source)

O Capitalismo

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , , , | Posted on 09:28

O Capitalismo sem o Espírito do Capitalismo.

 

  por, Luis Novais


Na sua obra mais famosa, “A Ética Protestante e o espírito do Capitalismo” (1905), Max Weber procurou encontrar fatores económicos e sociais com que definir o capitalismo, destrinçando-o de outros modelos coevos e do passado.

Aquilo que Weber viu no capitalismo foi o contrário das acusações que hoje lhe são frequentemente feitas: ser um sistema conduzido pela ganância e pela falta de ética. Também no tempo de Weber, seriam já muitos os que fariam essa conexão. Uma ideia contestada pelo sociólogo alemão quando este lembrou que “instinto de lucro, sede de ganho, de dinheiro, do maior ganho monetário possível, não têm absolutamente nada a ver com o capitalismo. Esta aspiração encontra-se e encontrou-se em criados, médicos, cocheiros, artistas, prostitutas, funcionários corruptos, soldados, salteadores, cruzados, jogadores, mendigos (…), em todas as épocas e países do mundo (…). Uma sede de ganho ilimitado de modo nenhum é idêntico a capitalismo.”

O que distingue, então, o capitalismo, de outras formas de aquisição de riqueza? Weber pega em textos de Benjamim Franklin, escritos entre 1736 e 1748, como exemplo de uma ética própria que estaria na base do espírito capitalista: “Lembra-te que o dinheiro tem uma natureza reprodutora e fecunda. O dinheiro pode produzir dinheiro que, por sua vez, produzirá mais dinheiro e assim sucessivamente (…). Quem mata uma porca aniquila a sua descendência até à milésima geração. Quem destrói uma moeda de cinco xelins, assassina tudo o que poderia ter sido produzido com ela: pilhas e pilhas de libras esterlinas.”

Ora, o capitalismo estaria precisamente ligado a esta moral: uma ascese relativamente ao dinheiro, ou, mais prosaicamente, a não comer a tal porca para que ela continue a dar gerações que, qual moeda de cinco xelins, também não serão sacrificadas para que prossigam a sua reprodução. Um certo espírito de sacrifício, portanto, em que o fado de cada um seria altruisticamente produzir mais e mais e consumir menos e menos.

Ou seja, uma sociedade de produção e não uma sociedade de consumo, se é que aquela pode subsistir sem esta, algo em que Franklin não parece ter pensado. Ou talvez sim. Talvez sim, porque muita coisa mudou entre este espírito do capitalismo de meados do século XVIII e o capitalismo que hoje temos. E o que mudou foi que o capitalismo estava, nesse tempo, longe de ser o sistema económico e social dominante, num Ocidente que ainda não havia tido a Revolução Francesa, a maioridade política da burguesia e ainda estava agarrado a ideias e modelos do Antigo Regime, alguns dos quais vindos diretamente do feudalismo medieval. O capitalismo que Franklin advogava era, assim, não um sistema dominante, como o é hoje, mas algo quase que de seita; neste caso herdado e advogado numa colónia que fora, ela própria, refugio para seitas religiosas e que só viria a ser país quase quarenta anos após os citados textos.

O espírito capitalista terá, assim, germinado neste caldo mental onde, ao fator trabalho se juntava a parcimónia. Um sistema, digo eu, incapaz de funcionar fora desta ética e que, sem ela, em nada se distingue da tal ganância que, como notou Weber, sempre se verificou ao longo da história, do cruzado ao salteador, do cocheiro ao funcionário corrupto.

De então para cá muita coisa mudou. De uma crença quase religiosa duma quase seita, o capitalismo tornou-se no sistema dominante. Aconteceu-lhe, por isso, aquilo que teria de lhe acontecer e que é o mesmo que acontece a todas as seitas quando deixam de o ser para passarem a ser o sistema: perdem a pureza inicial que é, afinal, o seu espírito, o seu cimento.

Isto mesmo acontecera já ao cristianismo que, de religião humanista dos mais pobres de Roma, se tornou, com a sua passagem a sistema religioso dum universo, na religião dos cruzados, dos impérios e da inquisição. Aconteceu a muitos outros sistemas na sua passagem de seita a modelo global e também ao capitalismo que, de quase religião de alguns, se transformou num sistema económico que, de tão dominante e generalizado, já não podia ser unido pelo cimento da sua ética original e foi tomado de assalto pelos cruzados, imperadores e inquisidores do nosso tempo, sejam eles especuladores, corruptores ou administradores de dinheiros alheios.

Ao longo da sua História, a humanidade foi encontrando diversas fórmulas de organização mental, social e económica. Na verdade, no sentido antropológico do tema, não há uma humanidade mas diversíssimas humanidades que não podem, por isso, ser enquadradas num só sistema, para mais quando esse sistema ambiciona globalizar-se, como já aconteceu a várias religiões e aconteceu ao capitalismo. Os modelos são indissociáveis da respetiva ética e essa ética só se mantém enquanto a sua dimensão não fragiliza a coesão mental do grupo.

A crise do capitalismo a que assistimos hoje não é, assim, uma crise do capitalismo. Nada existe sem o seu espírito e este modelo a que hoje chamamos capitalista já nada tem do “espírito do capitalismo”. Faz tempo, portanto, que o capitalismo morreu. Morreu de elefantíase, como muitos antes dele. Este é o verdadeiro problema: falamos do cadáver como se o cadáver estivesse vivo. Mais: insistimos em mantê-lo ligado ao ventilador por horror ao vazio que pensamos que sentiríamos se o perdêssemos definitivamente.

Se estivermos conscientes disto, é, talvez, tempo de lhe desligarmos a máquina, de lhe darmos o eterno descanso que merece. Tempo para pensarmos em regressar à pequena dimensão, às múltiplas antropologias culturais, sociais, económicas e políticas. Tempo, enfim, de resistirmos às tentações centrípetas que sempre atacaram as sociedades humanas e pensarmos em globalizar a diferença que, essa sim, é fonte de coesão e de realização pessoal e social.

(SOURCE)


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