Paris

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , | Posted on 08:03


"Amar em Paris, Quartier Latin"



(…) Não sei não!! Teus braços têm cores que desconhecia. Estórias da Cidade Luz, Paris. Assombros de noite, pernas perdidas entre lençóis brancos de linho. Roupas espalhadas, livros já gastos pelo tempo, cadernos reescritos de memórias carnais e jamais vendidas, somente a eles mesmos. O frio e mais frio, outonal – invernoso, subia pela pele febril de amor e a pele das carnes se aquecia ( ainda mais ) uma à outra. O amor aquece, e, dizem, até aquilo que desconhece. É cheirando as cores invadidas/invasivas que chegam, que escrevo a estória dos quartos com paredes vazias, dos amantes que se encalharam e que as vestiram.

“Naquela parede vazia, quarto de hotel, numa certa rua entre o “Arc de Triomphe” e o “Place de l’Etoile” eles escreveram estórias encarnadas de desejo, de beijos. Foragidos e com alma, loucos por natureza e sem pecado, amantes do desatino e disparatado se bastavam um ao outro, qual face na outra sem perdição, mas com toda a loucura da perdição. Sabendo a pouco os desatinos da sua paixão, por aquela rua quando ali chegaram, agarraram suas bagagens e mergulharam pelas ruas entre o “Rio Sena e o Jardim de Luxemburgo”, o “Quartier Latin”, e , empestaram-se de amor numa tonalidade mais brava, demente e intensamente sentida, cujo amanhã já morreu ou nunca mais existirá. Fundiram-se com a velha parte da Cidade Luz, entre livrarias, galerias de arte e cafés… escreviam cartas que deixavam nos recortes das paredes, entregues a um destino incompreensível e, o amor contorcia-lhes as almas e a fotografia empestava-lhes o olhar com fúria de morrer ali, morrer ali, com todos os beijos vendidos à condição frágil do amor, tudo por um simples momento dionisíaco e prenhe de arte.
“Quartier Latin” ousava despir-lhes todas as fragrâncias da existência que os habitava, e os beijos, e, porque viviam de beijos tornavam-se sinfonias ultrajantes de ousadias. As paredes daquele quarto no “Quartier Latin”, num amanhã que não existia, foram vestidas com as fotografias em nome do grande rebelde chamado, l´amour... o amor que os consumia gota à gota. Era essa a sua imortalização, fizeram-no e escolheram todos os momentos… e ousaram adoptar a fabulosa frase: “Madrid me mata!” e transpô-la para o “Quartier Latin”, onde todos os momentos eram mortos em nome do êxtase que não lhes devolvia qualquer centelha do tempo, antes eram devorados como velas sob chama intensa e rápida… mas o amor, vivi e revivia... ainda que breve.
Como o amor nunca anda desvinculado de chocolate, os nossos amantes adoravam encher os sacos no “Pierre Herme” e, sorriam inusitadamente e declarando nos olhares só seus, todo o ritmo que se queria devorado. À tarde era vê-los se lambujando amorosamente em cada Herme… suas línguas extravasavam-se de sentidos palativos, que talvez nem mesmo Grenouille, o personagem inventado por Süskind, em O Perfume, tivesse…
Mais tarde, quando o encontrei, a ele, soube que de facto nunca tinham se amado, tinham amado para além de si mesmos, tinham morrido em todos os instantes que não tinha sobrado carne para viver. Precisaram de dizer adeus, um adeus por amor intenso e grande, fora de si mesmos. Amor perturbante que consumiu o tempo e não aguentou a vertigem da emoção!! Para trás ficou aquele quarto, que hoje, é um hino à tradição de Amar em Paris nem que seja por 24 horas. As fotografias ficaram lá, o dono do hotel, recusou-se a deixá-las partir.“ (…)


in “crónicas anacrónicas” de NãoSouEuéaOutra - janeiro 08 2008

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Bichinho Azul, conta p´ra mim quantos dedinhos e buraquinhos contou por aqui?

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