PREDADORES PSÍQUICOS

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , , | Posted on 11:40



É um texto já antigo, mas será sempre actual. Tudo continua a navegar por aí nas sombras em lugares menos suspeitos!!

Lembremos o dito de Freud: "Primum non nocere" - antes de mais nada, não prejudicar quem está ferido!


NA ÁUSTRIA, EM PERNAMBUCO OU EM SP, ABUSADORES SEXUAIS PARTILHAM DA MESMA IDENTIFICAÇÃO MALIGNA COM A MÃE E DA INDIFERENÇA PELO OUTRO



 Os casos de pedofilia e incesto recentemente noticiados pela imprensa -a menina engravidada pelo padrasto em Alagoinha (PE), o austríaco que manteve presa sua filha por mais de 20 anos e com ela engendrou sete filhos/netos, a rede criminosa baseada em Catanduva (SP)- provocaram repulsa e horror em todos os que deles tomaram conhecimento.
Como é possível que alguém pratique tais atos, perguntam-se as pessoas, e quais as consequências deles para as vítimas?
Mesmo que pedófilo e incestuoso não sejam sinônimos - o primeiro se interessa sexualmente por crianças, o segundo toma como objeto uma pessoa da mesma família ou clã (criança ou não), portanto proibido pela lei ou pelo costume -, não é raro que as duas condições coincidam num mesmo indivíduo, como no caso de Alagoinha, e em tantos outros que diariamente chegam às instituições de tutela da infância.
Os motivos pelos quais um adulto - geralmente homem - aborda uma criança com o objetivo de se aproveitar dela são de diversas ordens.

Balas e pipocas

Em primeiro lugar, ela é mais fácil de atrair do que um parceiro adulto: balas, pipocas e a promessa de deixar jogar videogames bastaram para levar ao quarto do borracheiro de Catanduva os garotos que ele cobiçava.
Quem assim procede tem medo de que o adulto recuse seu convite; pode-se supor que seja acometido de ansiedade em relação ao seu desempenho ou que suas fantasias de castração sejam particularmente intensas.
Em segundo lugar, o "predador psíquico" - termo que tomo emprestado ao antropólogo Boris Cyrulnik - tem características que o singularizam entre as várias classes de perversos. A principal delas é uma identificação maligna com a mãe, diferente da que desemboca numa posição homossexual "normal" ou da que - caso venha a fazer parte da porção sublimada da libido - resulta num interesse pedagógico, numa atitude maternal e devotada para com os amigos etc.
O que norteia o impulso sexual do pedófilo é a combinação dessa identificação com um ódio imenso pela criança que ele mesmo foi - "meu objeto deve sofrer ainda mais do que eu sofri"- e com um completo desinteresse pelos sentimentos do outro, que leva o indivíduo a não se incomodar com as consequências que seus atos possam acarretar para a criança.
Quer esta tenha sido "apenas" bolinada, induzida a praticar felação ou estuprada, tais consequências são de extrema gravidade.

O abusador sexual busca muitas vezes uma revanche contra violências de que ele próprio foi vítima na infância (é a justificativa do austríaco Josef Fritzl para o que fez com a filha) e se aproveita do fato de que as crianças são efetivamente dotadas de sexualidade para as seduzir.
Mas atenção: a sexualidade infantil não se confunde com a adulta, e certamente não faz parte dela o intento de servir de meio para prazeres dos quais não tem noção.
Esse ponto é crucial. Todos sabemos que as crianças se interessam pelo que acontece no quarto dos pais e, no contexto do complexo de Édipo, desejam inconscientemente ocupar o lugar de um dos cônjuges.

"Pessoas grandes"

Sua imaturidade, porém, e o fato de desconhecerem muito do que se refere à vida sexual das "pessoas grandes" as fazem inventar o que Freud chamava de "teorias sexuais infantis".
Brincadeiras de médico, de "gato mia" e outras semelhantes expressam a curiosidade natural sobre o corpo, sobre a diferença entre meninos e meninas, sobre como se fazem bebês - mas são parte do que Sándor Ferenczi [1873-1933] denominou "linguagem da ternura".

Já o adulto - perverso ou normal - opera na "linguagem da paixão", ou seja, num registro que confere sentido bem diverso à excitação, às fantasias e aos atos eróticos.
A "confusão de línguas" da qual fala o psicanalista húngaro nasce de que o adulto não controla seus impulsos e excede os limites que a cultura impõe na esfera sexual.
Como afirma com razão Renata Cromberg, não se podem confundir "carinhos de pai" - beijos, abraços, afagos normais e desejáveis na relação pai-filha - com "carinhos de homem": os mesmos gestos, porém realizados com o intuito de proporcionar prazer sexual para si, e nunca para a criança.
Quando isso acontece, esta se vê enredada numa armadilha fatal: sente-se culpada por suas fantasias incestuosas (que, repito, fazem parte do desenvolvimento normal) e chocada pela maneira como elas acabaram por se realizar.
A perplexidade se soma à vergonha e ao trauma de se ver traída por alguém em quem confiava; os efeitos na mente infantil são devastadores, e a eles se somam muitas vezes vestígios corporais, da irritabilidade ou ferimentos nos genitais à gravidez.
A situação é frequentemente complicada pelo medo de contar o que ocorreu ou, pior ainda, pela incredulidade com que o relato é recebido.

Mães se recusam a acreditar que o homem que amam possa ter cometido "aquilo" ou são coniventes (alguém duvida de que a mulher de Fritzl sabia - ou pelo menos suspeitava - do que estava acontecendo naquele porão?); autoridades (como a responsável pela Delegacia da Mulher de Catanduva) não dão seguimento à investigação; e o silêncio contribui para agravar a confusão e a dor.
Diante da incompreensão dos adultos, a criança vítima de abuso sexual aciona mecanismos de defesa violentíssimos, que acabam por aumentar ainda mais o seu sofrimento: identificação com o agressor, entrada numa posição masoquista, cisão da parte da sua mente que abriga as lembranças do fato e outros mais.
Pode se tornar abúlica ou muito agressiva, perder a capacidade de sonhar ou reviver a cena em pesadelos, ser to- mada por sentimentos de perseguição, pela culpa de ter "induzido" o ato ou pela imagem obsedante do agressor. Este, porém, pouco se importa com tais consequências: como sua personalidade é de tipo narcisista, a desumanização do outro não lhe provoca emoção nenhuma.
Contudo, por trás da fachada triunfante, nota-se que esse narcisismo é muito frágil: recobre precariamente um grande vazio e uma angústia atroz quanto à própria identidade.
Compreende-se que o perverso - e particularmente o pedófilo/incestuoso - busque na sexualidade um lenitivo para a incerteza sobre quem é e sobre o que pode ("a pedofilia é a perversão dos fracos e impotentes", diz Freud) e um meio de desviar sobre um ser indefeso o ódio e a hostilidade contra seus objetos internos.

O entendimento sobre como funciona a personalidade do agressor, porém, não diminui a gravidade dos atos que pratica nem a dor imensa que inflige à sua vítima.
O tema do abuso sexual é complexo, e é evidente que estas breves observações não o podem esgotar. A informação adequada é essencial para quem lida com os desastres que ele provoca.
Por isso, gostaria de concluir este artigo recomendando a juízes, médicos, promotores, assistentes sociais, psicólogos - e também aos familiares das vítimas - a leitura de quatro livros nos quais me baseei para o redigir: "Cena Incestuosa", de Renata Cromberg; "Perversão", de Flávio Carvalho Ferraz; "Psicopatia", de Sidnei Kiyoshi Shine; e "Narcisismo e Vínculos", de Lucía Barbero Fuks, este uma coletânea na qual figuram vários trabalhos sobre o assunto [todos publicados pela ed. Casa do Psicólogo].


Lembremos o dito de Freud: "Primum non nocere" - antes de mais nada, não prejudicar quem está ferido!


RENATO MEZAN é psicanalista e professor titular da Pontifícia Universidade Católica de SP. Escreve na seção "Autores", do Mais!

Love, Amour, Amor

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , | Posted on 05:36

desconheço autor/a da imagem


« A Dor pode chegar a um ponto que, perdemos a faculdade de expressar o que sentimos. Sumimos… sumimos!!  Apenas uma coisa resgata: Amor!!!  Se a flor não recebesse a Luz do dia e o Escuro da noite, murcharia, porque não teria como se alimentar...   as abelhas não existiriam e nem o mel!!!  Sem esse movimento, somos mortos vivendo entre mortos ou vampiros!  »

NãoSouEuéaOutra in  Horas Vagas




" Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras. (…)
Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós... "
Fernando Pessoa

Pinturas

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , , | Posted on 16:34




alguns esboços de pinturas abstractas...

« neste vão perdido, nesta escada que desce e sobe... do Nada sei, e, do Sei nada. mergulho às tantas na permanente e absurda existência de uma saudade que nunca temi e que me ofende. no relógio, vejo marcar duas vezes aquele numero 12, e sei que a terra deu a sua volta completa... e depois, olho a minha vida e encravo nas doze garras... dizem que os obeliscos tremem quando cruzo os olhos e me ferro ao veneno das picadas das serpentes e dos escorpiões. sei da morte, sei da vida e nada sei do que sei, e atiro-me à parede como quem atira barro nela. 
cruzo dimensões, e rio-me deste jogo absurdo. há no sangue tanta coisa que nem a Santa Fé tem poder, e há tanta coisa no veneno de Deus que nem a ciência chega. 

sabem, prenderam-me à masmorra e os séculos vieram e vivi mil vezes... uma e outra e mais outra e aqui está o momento, este Agora... fulminante. »

Portugal, visto por um buraco!

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in | Posted on 16:19


Se soubesses de Mim... mas não sabes!

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , | Posted on 16:14


« as coisas que (nunca) te direi, morrem em mim de espasmos. estranguladas, decapitadas haverão elas de ser, apenas porque o (teu) amor não te representa, é apenas evasão, tempo à minha beira... passagem! »

Sei lá, conhecem a expressão?

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in | Posted on 16:07

via thumblr

« às tantas  já não sabemos. ficamos assim... ridículas, incrédulas! »

Da Dor da Perda

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , | Posted on 12:27



Chegou-me este cheiro a Mar
Nas Crateras da Terra vou Mergulhar
Dizem-me os ancestrais que deixaram de Amar...
Fui ficando como um fio de cabelo
Enrolando ao entardecer por entre os dedos o pêlo
Onde o coração já nada mais  é senão gelo...



INFORMAÇÃO:

Não há endereço de e.mail algum da minha parte com o titulo deste blog. Repito: Não escrevo para ninguém com um e.mail cujo endereço seja nãosoueuéaoutra, ou tenha esse nome ou outras palavras ligadas. Não existe. Se existe, não sou eu.  Não estou em mais nenhum site, nem com outros nomes e, apenas o que está no perfil conectado a este.
Se alguém recebe alguma coisa, aviso que nada tem a ver comigo!!!

A Mulher

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , , , | Posted on 12:17

Por, Álvaro Ribeiro

(...)A mulher está virtualmente em paixão, porque lhe é vedado exprimir os seus sentimentos e manifestar as suas emoções, ou porque receia as represálias de uma sociedade que considera ridículo o amor, de uma sociedade que tende a transigir com a disciplina erótica de novas doutrinas sexuais. Obrigada a transferir a sua actividade, que se destina geralmente a pessoas, e especialmente a crianças, para as coisas de valor social, a mulher altera a sua personalidade por masculinização, até chegar à idade em que naturalmente se desinteressa de todos os atributos da feminilidade. Mau psicólogo será aquele que não souber ouvir, no discurso aparentemente neutro da mulher, um fio de voz que pede liberdade para a vida sentimental, e lealdade do homem que mereça o sacrifício dessa liberdade em dedicação.

Esta regra, seguida pelos romancistas, de considerar a mulher virtualmente apaixonada por um homem, é como todas as regras susceptível de sofrer excepções. A excepção cai sempre abaixo da regra, porque a excepção superior, se existisse, abriria caminho para uma regra melhor. Esta regra literária costuma ser, aliás, confirmada pela tese social acerca da tendência monogâmica da mulher, naturalmente mais fiel do que o homem, e pelo seu reconhecimento no direito civil.


(...)
Cessando o obscuro silêncio da paixão, e também a linguagem alegórica do sentimento, para reinar a eloquência directa das emoções, a mulher realiza na intimidade conjugal uma liberdade ideada, aquela liberdade de que a sociedade a privara, enquanto solteira, visto que a expressão das emoções, se em certos limites é proibida ao sexo masculino, em muito maior escala o é ao sexo feminino.

(...)
À medida que as mulheres vão adquirindo maiores habilitações escolares e, consequentemente, ascendendo na escala social, maior consciência adquirem da superioridade do sexo feminino sobre o sexo masculino. Não observam os homens este sinal precursor da sociedade futura que lhes deveria ser mostrado pelos romancistas. É evidente, porém, e já vai tomando um aspecto clamante e alarmante na vida social, o desencanto do amor entre cônjuges que se encontram habilitados a mutuamente julgarem os valores intelectuais e espirituais.

A inteligência da mulher, exercitada por uma cultura masculina e masculinizante, desenvolve-se em detrimento daquela intenção preservativa da beleza e da bondade. A mulher muito inteligente vai-se tornando ou feia ou má. O homem, demitido da sua função de chefe de família ou de cabeça-de-casal – pois nunca devemos esquecer que chefe significa aquele que pensa -, sofre, na vida doméstica, ou nas relações mundanas, uma humilhação terrível de que há-de compensar-se humilhando os seus inferiores e, mais ainda, os seus semelhantes.

(...)
A mulher que não goza da felicidade conjugal também não pode deixar de dar sinais visíveis e audíveis da sua infelicidade. Rara é a mulher que, no seu comportamento rigorosamente honesto, não deixe escapar uma frase denunciante de juízo depreciativo acerca do marido, frase que profere em termos de indulgência tão pouco oportunos que logo provoca o ridículo. Tal juízo, que não passa desatendido dos ouvidos atentos, é suficiente para revelar os gostos e os desgostos da mulher.

A Mulher é Rara

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , , , , | Posted on 11:44

 A VERDADEIRA MULHER

“A Mulher é Rara”, de Louis Pauwels 
- jornalista e escritor francês -


"A verdadeira mulher, aquela que vem a nós do fundo das eras, a mulher que nos foi dada, per­tence inteiramente a um universo estranho ao homem. Ela cintila no outro lado da Criação. Ela conhece os segredos das águas, das pedras, das plan­tas e dos animais. Ela fixa o sol e vê claro na noite. Ela possui as chaves da saúde, do descanso, das har­monias da matéria. (…) É ela que se­meia o homem: volta a pari-lo, nele reintroduz a in­fância do mundo. Ela o devolve ao seu trabalho de homem, que é elevar-se o máximo possível acima de si mesmo”.




 O problema é que quase não há mais mulheres. Sus­tento que as mulheres desapareceram, que houve uma catástrofe, que a raça das mulheres foi dispersada e aniquilada sob nossos próprios olhos, que não pu­deram ver. Senhores, a mulher, a descendente do pa­leolítico e do neolítico, nossa fêmea e nossa deusa, o ser que eu chamaria de mulher do homem e que já não sabemos como é, foi perseguida, atingida em seu corpo físico e em seu corpo mental, e devolvida ao nada.
As entranhas da Terra estão plenas de flores­tas tragadas, de restos de espécies animais desapare­cidas, de cinzas de raças humanas e sobre-humanas cuja história, se nos fosse revelada, desafiaria a mais louca imaginação. Nossa verdadeira fêmea, ela tam­bém, misturou-se ao húmus dos abismos subterrâ­neos. Por quê? Ah, senhores, reflitam! Foi ela quem arcou com os custos da imensa, da implacável luta contra as religiões primitivas do Ocidente. Essa luta é toda a história do mundo dito civilizado. Os senhores acreditam que nos lugares onde as legiões romanas nunca conseguiram adaptar sua religião — por exemplo, na Gália ou na Grã-Bretanha —, os sol­dados de Cristo encontraram uma terra inculta e sem deuses? Em inúmeros lugares da velha Europa, nas landes, nas planícies de menires, no fundo do mato e nas margens dos rios onde Pã cantava, sobrevivia a religião nativa oriunda da noite dos tempos, a ver­dadeira religião do homem ocidental. Senhores, es­tou certo de que a Europa viveu, durante milênios, de um elevado pensamento místico, ele mesmo oriun­do de outras eras, consagrado ao Deus Cornudo e à exaltação do princípio feminino. É evidente que essa espiritualidade original foi afogada com violência, no fogo e no sangue, por uma religião estrangeira, vinda do Oriente: o cristianismo. O Deus Cornudo, protetor da antiga humanidade do oeste, foi chama­do de diabo e amaldiçoado.
Os ídolos imemoriais foram derrubados e foi preciso destruir, junto com eles, seu suporte: a mulher-mãe, a mulher-deusa, a mulher-fêmea, a verdadeira mulher.
As pessoas cultas denunciam hoje as atrocida­des do colonialismo recente: os indígenas aniquila­dos, os feiticeiros africanos extintos, as civilizações negras martirizadas. Mas não falam de nossos anti­gos totens, que foram derrubados! De nosso Deus, que foi aviltado e perseguido! De nossas sacerdoti­sas, que foram exterminadas! De nossa mulher, que nos foi subtraída! A velha Europa também foi colo­nizada e desfigurada. Sim, senhores, ouso dizê-lo. Do ponto de vista puramente antropológico em que me situo, a história da Igreja cristã é a história de uma guerra empreendida pelo estrangeiro contra um cul­to nativo muito antigo, muito poderoso, muito pro­fundamente arraigado e de um crime bem-sucedido contra toda a raça humana fêmea. Nós perdemos nossa metade, senhores. Como demonstrarei, ela foi morta.
Não acuso. Talvez esse crime fabuloso fosse necessário. E talvez fosse inevitável. A civilização não seria o que é se a verdadeira mulher ainda existisse. Nós continuaríamos a crer no Paraíso terrestre. O espírito humano não teria tomado novos rumos. Não estaríamos hoje a ponto de atingir as longínquas galáxias, não teríamos aberto as portas do universo, pe­las quais já penetra o chamado do Deus último, no qual se fundirão todos os nossos deuses, no qual o espírito do globo se reabsorverá um dia, tendo cum­prido sua missão. Mas examinemos esse crime. Ex­termínio físico em fogueiras: evocarei as centenas de milhares de verdadeiras mulheres, chamadas de bru­xas e queimadas como tais, e os outros milhões de mulheres vencidas e transformadas pelo medo. Eu os remeto ao Michelet visionário de La Sorcière, li­vro admirável e incompreendido. Extermínio pela propaganda, arma mais certeira do que todas as ou­tras, como já sabemos, e mais eficaz na época do que a polé e os borzeguins. Guerra revolucionária em­preendida pela Cavalaria contra a mulher verdadei­ra, a favor de um novo ídolo. E, enfim, num plano mais amplo, mais misterioso e concomitante, muta­ção decadente da espécie. De tal forma que, pouco a pouco, o ser fêmeo autêntico foi substituído por um ser diferente.
Senhores, o ser que chamamos de mulher não é a mulher. É uma degenerescência, uma cópia. A essência não está aí, o princípio não está aí, nossa alegria e nossa salvação não estão aí.
(…)
Chamamos de mulheres seres que dela não têm senão a aparência, tomamos em nossos braços imitações de uma espécie inteiramente ou quase destruída.
A mulher é rara, disse Giraudoux. Ao despo­sarem uma medíocre falsificação dos homens, um pouco mais artificiosa, um pouco mais maleável, a maioria dos homens desposa a si mesma. É a si mes­mos que eles vêem passar pela rua, com um pouco mais de colo, um pouco mais de quadris, o todo envolvido em seda; é a si mesmos que eles perseguem, abraçam, desposam. Afinal, é menos frio do que des­posar um espelho. A mulher é rara, ela transpõe as enchentes, derruba os tronos, ela detém os anos. Sua pele é o mármore. Quando há uma, ela é o impasse do mundo… Para onde vão os rios, as nuvens, os pássaros isolados? Se lançar na Mulher… Mas ela é rara… Deve-se evitá-la quando a vemos, porque se ela ama, se ela detesta, ela é implacável. Sua compaixão é implacável… Mas ela é rara.

(...)

A verdadeira mulher, aquela que vem a nós do fundo das eras, a mulher que nos foi dada, per­tence inteiramente a um universo estranho ao homem. Ela cintila no outro lado da Criação. Ela conhece os segredos das águas, das pedras, das plan­tas e dos animais. Ela fixa o sol e vê claro na noite. Ela possui as chaves da saúde, do descanso, das har­monias da matéria. É a feiticeira branca entrevista por Michelet, a fada de largos flancos úmidos e olhos transparentes, que espera pelo homem para reconstituir o paraíso terrestre. Se ela se der a ele, será num movimento de pânico sagrado, abrindo pa­ra ele, na quente obscuridade de seu ventre, a por­ta para o outro mundo. Ela é a fonte de virtude: o desejo que ela inspira consome a excitação. Mer­gulhar nela devolve a castidade. Ela é estéril, pois detém a roda do tempo. Ou, melhor, é ela que se­meia o homem: volta a pari-lo, nele reintroduz a in­fância do mundo. Ela o devolve ao seu trabalho de homem, que é elevar-se o máximo possível acima de si mesmo. Dizem super-homem, não dizem supermulher, porque a mulher, a verdadeira, é aquela que faz o homem mais do que ele é. A ela, basta-lhe existir para ser, plenamente. O homem deve passar por ela para passar ao Ser, a menos que escolha outras asceses, onde ainda voltará a encontrá-la, sob formas simbólicas.
Senhores, descobrir a verdadeira mulher é uma graça. Não ficar assustado, outra. Unir-se a ela re­quer a benevolência de Deus… Que estranho encon­tro! Ela aparece bruscamente no rebanho das falsas mulheres, e o homem favorecido que a vê se põe a tremer de desejo e de temor.

    “Tudo vai mudar, chega de jogar:
    Vejo teus seios desabrocharem
    E às vezes teu ventre fremir
    Como um sol quente que se ergue,
    Tu me aquietas e eu me admiro
    Com esses poderes que deténs…”


O texto acima é uma Conferência Imaginária, entitulada “A Mulher é Rara”, de Louis Pauwels - jornalista e escritor francês que juntamente com Jacques Bergier escreveu “Les Matin des magiciens” (1960).

via

Da LIBERDADE e os LIMITES

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , , | Posted on 11:30

TODO AQUELE QUE NÃO DEIXA O QUE TEM, NÃO PODE SER MEU DISCÍPULO.


ou seja, tudo aquilo que tem, implica também as suas possessões pessoais, os seus vícios públicos e secretos, até as próprias dores. não se trata apenas deixar a família, amigos; bens materiais.

ou seja, deixar os traumas, a própria memória do passado, as circunstancias que agradavam e desagradavam.
Deus, pede uma autentica renuncia a quase todos os níveis, para que possa se encontrar com ele na mais intima profundeza de nós mesmos. num lugar onde apenas acontece a consciência daquilo que somos feitos. que não pode ser dito por palavras, apenas pode ser sentido.

alguém profundamente afundado no prazer ou na dor, não pode deixar isso que o apega. uma pessoa que tenha verdadeira obsessão e viva obcecada por liberdade e viver o prazer sem qualquer visão do outro, a não ser dela mesma, não pode se entregar ao fluxo real da sua verdadeira existência, porque ela está prisioneira do primeiro estágio, que é o apego à liberdade. então, não se permite a entregar, porque ela é a primeira a impor o preço da sua liberdade, ao qual os outros terão de sujeitar-se para que essa liberdade que deseja possa ser concretizada!! ela faz o caminho para que essa liberdade ocorra, para ela mesma. a pessoa, no oculto de si mesma, vive terrificada por perder essa liberdade. essa liberdade, implica por vezes ser atingida por meios materiais, para lhe dar a sensação de que é livre, outras vezes por uma boa retórica. mas tudo é uma ilusão, a pontos de auto-enganar em comportamentos de filantropia, que tem apenas o propósito de auto-convencer que é livre.
as vezes, testa-se essa liberdade doando algo precioso, que lhe foi difícil de alcançar, para alguém mais rico, mais poderoso... falo em termos materiais e popularidade social. é que essa coisa do pobre, uma pessoa justifica-se pelo acto de piedade e impossibilidade de o outro não ter, e saber que será difícil que venha a obter. portanto, essa doação como reflexo de que sou livre e portanto desapegado, é apenas uma auto-indulgencia que se pratica para denunciar que a liberdade não é algo natural, mas antes auto-imposta e exigida aos outros, e com isso recria-se um cenário para que se auto-realize a farsa da liberdade.
é que entregar tudo o que tem, implica entregar também a própria liberdade, essa liberdade que exigimos que os outros nos dêem... porque é sempre o outro que vai ser o disturbio para a perca da liberdade, porque a pessoa nunca se põem a si mesma que seja ela que vai desencadear a perca da liberdade.

uma cela com 3 por 3 metros pode albergar uma cama, uma mesa com cadeira e uma janela, e nela viver uma pessoa que pode, sim pode, sentir a maior e total liberdade interior... não é a cela que condiciona a liberdade, é a própria alma que a condiciona. a liberdade é algo que está no interior de cada pessoa... os limites impostos à liberdade do ser no seu aspecto externo é uma outra forma, porque uma pessoa que possa ter tudo ao nível da matéria, não quer dizer que seja livre ou tenha o verdadeiro sentimento da liberdade, já que esta está dependente das circunstancias e dos meios que tem... e esta é a cruel ilusão que poucos tem consciência. o mundo da matéria, ou seja, o profano, o terreno é um lugar fértil para fabricar e vender ilusões.

quando se afirma que, quando alguém lhe impõem limites que lhe limita a liberdade, então essa pessoa não é verdadeiramente livre... já que denota um medo profundo de algo, ou, de alguém lhe vir impedir o sentimento de ser livre... isto quer dizer que a sua liberdade está dependente de ninguém vir desafiar-lhe a própria liberdade!!!



Nota importante, não sei o nome de quem escreveu este texto. Onde retirei, esqueci. Esqueci completamente. O texto tem autoria. Portanto, quem ler, e souber onde já o leu, fazia  o favor de deixar o link na caixa dos comentários, para a página do autor ou autora... Provavelmente é uma autora.

Publicidade e Desconexão

Posted by NãoSouEuéaOutra | Posted in , , , , , | Posted on 10:52

 Não concordo, que o isolamento tenha que estar sempre baseado em vícios. Nem todos os vícios levam ao isolamento. Quanto àqueles que têm  o vício de criar, e que só o isolamento quase total pode oferecer a liberdade para a mente se soltar? (até pode ter sido violado, perseguido, visto a sua vida em perigo... e não ter vícios nenhuns!!!)
Será que esta cultura quer que todos sejam viciados em álcool, cigarros e outras substancias?? E quem é viciado em ar da montanha (?) vão me dizer que é doido?
 E aqueles que só se encontram, se estiverem isolados, porque conviver com os outros é alienar-se? (não têm vícios químicos nenhuns!!) Nem todos os que gostam de isolamento, têm de fumar drogas, incluindo o cigarro, beber álcool, comer chocolate até morrer; comer alimentos até enfartar; tomar anti-depressivos ou estar louco! 
Nem todo o isolamento, tem de levar ou vir do álcool, das drogas e outras dependências químicas... por certo, há pessoas que se isolam, e não usam qualquer substancia, provavelmente, se não suportarem, a escolha do isolamento, terão de optar,  pela vida ou pela  morte!! Não tem meios termos, nem meias fugas!! Mas isso, é a minha opinião!!! 
Senão, como se explica o eremita no cimo da montanha, ainda que tenha sido molestado por várias pessoas, não ter vício nenhum, e apenas comer o que a terra dá e ficar introspectivo, procurando uma iluminação??
Aqueles que se isolam, porque não suportam o vicio da dependência emocional pelos outros e, que não têm  vícios, quer de fármacos, quer de alimentares, quer de narcóticos??

Não acredito, que têm de se buscar vícios, quando se está em isolamento!! Não me digam, que uma pessoa que tenha animais, que os animais são o vício? Mas não é um vício desviado!! O problema do isolamento, é não sentir algo que preencha... é uma falta. Quando não existe essa falta, e a pessoa goste do isolamento??

Perguntas e perguntas e mais perguntas! Apetece-me descorrer em mil perguntas?


Uma pequena história: Por uns setes anos, fumei cigarro. Uns cigarrinhos elegantes, finos. Gostava daquilo. De fumar, mas fazia-me sentir mal. Era o hábito. Concordo que, começei a fumar por uma questão de tensão, por conta de uma situação.  Para quê? Para controlar a mim mesma. 
Num determinado período da vida, já lá vão uns anos, tive um tremendo desgosto a vários níveis. Fumava e fumava. Um dia, não tive paciencia para me levantar e ir comprar os ditos. Era sexta-feira, e já eram 22 horas. Não fui, e disse para mim mesma que haveria de ir à tabacaria no dia seguinte. Eu aguentaria. Veio o dia seguinte, e eu nada. Adiei novamente. Veio domingo, e nada. Segunda- feira chegara, e eu disse para mim muito séria, « estás em sofrimento total, e que tal juntares o sofrimento pela falta do cigarro ao outro? experimenta?! mas isso é uma bomba!! vou aguentar, justo quando mais preciso de uma fuga à dor?» Assim experimentei. Ao fim de uma semana, dirigi-me à tabacaria para comprar os cigarros. Tinha de os comprar. Sim, mais valia ter em casa, do que ter a sensação de que não estavam à mão. Disse ao homem da tabacaria, que seria a última vez que me veria e que também iria despedir-me, já que da sua tabacaria apenas comprava cigarros. Assim foi!!! 
Num caderno à parte, comecei a apontar os dias que não fumava. Só queria ver quadros em branco, e dias a subirem e semanas a virem e nem uma passadinha. A caixa de cigarros, em cima do frigorifico. Apenas tirou-se um, para fazer de conta que se fumava. Depois passei para a imaginação, e apercebi que apenas o acto de aspirar profundamente o ar, como se fosse um cigarro e depois expirar, que ao fim de 3 vezes ficava aliviada, e nem mais pensava na coisa. 
Os anos passaram, 5 anos e nunca mais e, nem me afecta. Nunca mais tive o impulso. Às vezes, estão fumando, e nem vejo as pessoas a fumarem!!!    Mais uma, não bebo café!!! O último, foi aos 18 anos. Provocava-me ansiedade!!! Adoro o cheiro, mas beber nem... nem... nem... nem...

 Mas concordo, com o que, a publicidade é capaz de fazer, e como usa a indução psicológica para semear culturas, moralidades... todos sabem, que os meios de comunicação são peritos em lavar os cérebros!!



Tá falando comigo? Publicidade e desconexão 
 Jean Kilbourne

(Tradução - Antônio Almeida)

Can’t buy my love: how advertising changes the way we think and feel. 
New York: Touchstone, 1999. (Capítulo 11)


No núcleo de todo vício está a solidão, o isolamento. Por definição, os viciados sentem-se isolados. Eles sentem que a substância da qual são dependentes é seu único amigo real e fonte de conforto – a coisa que os mantém vivos, em vez da coisa que os está matando. Eu costumava dizer que sem o álcool eu colocaria uma arma na minha cabeça. Mas, o álcool era a arma. A fumante sente que o cigarro é seu melhor amigo, mas, de fato, ele é seu assassino. Em seu clássico, Under the Volcano (Sob o vulcão), Malcom Lowry descreveu “a palpitante e estremecedora capa de solidão de seu protagonista alcoólatra e escreveu: ‘Deus, será possível sofrer mais do que isto, deste sofrimento algo deve nascer, e o que nasceria seria sua própria morte’.”
Jean Baker Miller refere-se a esta terrível solidão como “condenação ao isolamento”, um estado insuportável no qual a pessoa sente-se destinada à solidão e responsável pelo isolamento. Quem está só merece estar só. Não merece ser amado. Este estado é o resultado de desconexão violenta e freqüente na infância, algo que muitos viciados experimentaram. De fato, é quase impossível estar nesse estado de “condenado ao isolamento” sem buscar auxílio de drogas ou outros vícios. Uma vez que a ânsia por conexão das mulheres tem sido frequentemente patologizada, Miller afirma que a verdadeira patologia e os problemas psicológicos são resultados de desconexão ou violação, especialmente nas primeiras relações. Estas desconexões ocorrem em um nível sociocultural, bem como nas famílias.
Todos os viciados, homens e mulheres, tornam-se viciados às várias substâncias por uma gama de razões. Como discuti anteriormente, cada vez mais, os cientistas estão descobrindo que a maior parte e talvez todos os vícios, incluindo distúrbios alimentares e vícios comportamentais como vício por sexo e jogo têm aspectos bioquímicos e que algumas pessoas são geneticamente programadas para serem mais susceptíveis ao vício. No entanto, também é verdadeiro que muitos viciados se voltam para o álcool, os cigarros, outras drogas, sexo e comida em uma tentativa de se medicarem contra a depressão e o desespero e, frequentemente, para se protegerem de dolorosas memórias de suas infâncias. Pelo menos dois terços dos pacientes em centros de tratamento por uso excessivo de drogas dizem que eles foram física ou sexualmente abusados quando crianças. Isto é particularmente verdadeiro para as mulheres.
As mulheres viciadas não eram estudadas separadamente até os anos 1970. Desde então, a pesquisa tem encontrado diferenças fundamentais nos modos como homens e mulheres usam drogas e outras substâncias. As mulheres são muito mais propensas a usá-las como auto-medicação, para lidar com a raiva e a depressão, e como anestesia para lidar com eventos traumáticos tais como abuso sexual na infância ou alcoolismo em família, enquanto os homens são mais propensos a usá-las para recreação e prazer. Há muitos anos sabia-se disto para o álcool e os cigarros. Mais recentemente, isto foi verificado como verdadeiro também para os excessos alimentares. Um levantamento em 1100 pacientes de programas para a perda de peso relatou que as mulheres tendem a comer excessivamente quando zangadas ou tristes ou usam a comida como consolo quando sozinhas ou deprimidas. A pesquisa verificou que homens obesos tendem a comer excessivamente em situações sociais positivas, quando estão celebrando ou quando são encorajados, por outras pessoas, a comer.
Uma coisa que aprendemos com certeza é que, para as mulheres, os vícios são enraizados no trauma. Vários estudos descobriram que as mulheres alcoólatras têm mais tendência do que os homens a ter experimentado privação e rejeição na infância, incluindo ausência, divórcio, morte ou alcoolismo de um dos pais. Elas também tendiam a terem sido abusadas sexualmente. De fato, a psicóloga Sharon Wilsnack constatou em seu estudo de 1997 que abuso sexual na infância é o mais forte indicativo (predictor) para a dependência de álcool em mulheres, mais forte inclusive que uma história de alcoolismo na família. Ela estima que, na infância, metade dos quatro milhões de mulheres alcoólatras nos EUA foram abusadas sexualmente. Em seu estudo, aquelas que foram molestadas quando crianças têm uma taxa de depressão mais de duas vezes maior que o das outras mulheres.
De acordo com a pesquisadora Becky Thompson, pelo menos a metade das mulheres com problemas alimentares foram abusadas sexualmente quando crianças. Vários estudos mostram que de 55 a 99% das mulheres em tratamento por vício em drogas relataram uma história de trauma físico ou sexual, a maioria deles ocorreu antes dos 18 anos de idade e estavam relacionados a repetidos assaltos durante a infância. Quando as mulheres eram vítimas de ambas as formas de abusos, elas eram duas vezes mais propensas a abusar de drogas do que aquelas que tinham experienciado apenas um tipo de abuso. Outra pesquisa descobriu que, sem importar que o vício fosse em álcool, heroína, outras drogas ou comida, de 34 a 80% das mulheres viciadas eram sobreviventes de abuso sexual. A enorme diferença nas estatísticas reflete o quão impossível é saber os números exatos, mas mesmo o número mais baixo, um terço, é estarrecedor. Sabemos bem que nada mais produz um sentimento tão profundo de “condenado ao isolamento”.
O abuso sexual é o mais corrupto relacionamento, a mais terrível desconexão. E, como temos aprendido nos anos recentes, ele é mais comum do que muitas pessoas querem acreditar. Uma revisão de 166 estudos realizados entre 1985 e 1997 concluiu que de 25 a 35% das meninas e de 10 a 20% dos meninos são sexualmente abusados, normalmente, por homens que eles conhecem e confiam. Este abuso frequentemente leva à desordem de estresse pós-traumático (DEPT), com seus terríveis sintomas de ataques de pânico, pesadelos, depressão, flashbacks e episódios de dissociação. Vários estudos descobriram que de 30 a 60% das mulheres em tratamento por uso excessivo de drogas sofrem de DEPT – duas a três vezes mais que a taxa entre os homens em tratamento. Os homens também sofrem terrivelmente pelos abusos sexuais, naturalmente, - o uso excessivo de múltiplas substâncias entre os meninos que foram sexualmente abusados era de 18 a 21 vezes maior do que entre os meninos que não foram abusados.
Quando o próprio corpo não está seguro, as pessoas frequentemente escolhem “deixar o corpo”, dissociam. Dissociação é um mecanismo de defesa muito comum usado pelas pessoas que foram abusadas. De acordo com a teóloga Rita Nakashima Brock, “as estimativas mostram que 80 a 95% das prostitutas nos EUA, quando crianças, foram sexualmente abusadas. Os mecanismos psicológicos da dissociação que elas aprenderam, para sobreviver ao abuso sexual, são os mesmos que elas têm que usar para sobreviver como prostitutas. Não são saudáveis os mecanismos psicológicos que as pessoas usam para sobreviver em um negócio onde elas servem estranhos neste esquisito estilo sexual sem intimidade.” Quando uma pessoa dissocia, essencialmente, ele ou ela “não está lá” – não presente à relação ou capaz de conexão profunda. Nas proximidades do trauma, dissociamos à vontade. Anos mais tarde, quase sempre, algum tipo de droga ou vício é necessário para manter a dissociação. Visto por esta luz, algumas publicidades são de arrepiar, como a publicidade de cigarro que diz, “ela foi para Capri e não voltará”, a publicidade de álcool que promete “sua ilha especial”, e a publicidade de chocolate que afirma “algumas vezes, você está mais em contato com o mundo quando você está fora de alcance.”
O álcool é uma droga perfeita para quem está procurando e temendo conexão porque ele dá a ilusão de intimidade, enquanto faz da intimidade real algo impossível. Isto é reforçado pelas publicidades que, com sua luz âmbar e ceninhas confortáveis, continuamente promete um fim para o isolamento – um isolamento que o excesso de álcool virtualmente garante. Pessoas com problemas alimentares também escapam de seus corpos de várias maneiras. Elas podem desperdiçar-se até que muito pouco tenha sobrado de seus corpos ou elas podem esconder-se sob camadas de gordura. Para se sentir plenas, elas podem empanturrar-se e então se purgar para se sentir vazias e “limpas” novamente. Nos dias atuais, raramente, há fronteiras claras entre os vícios. Muitas mulheres, em particular, têm sofrido múltiplos traumas e a maioria das mulheres viciadas possui vários vícios.
Há muitas formas de anestesiar os sentimentos. Algumas são muito mais aceitáveis culturalmente do que outras. No entanto, todas elas têm raízes similares em diferentes formas de abuso na infância, vergonha e raiva. Eu não penso que a raiva seja o fundamento. Eu penso que o fundamental é o fracasso. Nos voltamos para o álcool, os cigarros, outras drogas e comida porque tememos que não sejamos capazes de suportar o fracasso se estivermos realmente conscientes. Nunca queremos voltar lá novamente. Mas devemos, se queremos nos recuperar.
Naturalmente, ninguém precisa ser mulher para experienciar um sentido de condenação ao isolamento. Desconexões angustiantes também ocorrem na vida dos homens, mas os homens são socializados para responder de modo diferente das mulheres a estas violações. Homens que observam suas mães serem espancadas na infância têm maior tendência a se tornarem espancadores, enquanto mulheres tendem a se tornar vítimas de espancadores. Homens que, como crianças, são sexualmente abusados tendem a se tornar predadores, enquanto as mulheres frequentemente acabam, mais obviamente, causando danos a si mesmas, casando-se com homens que abusam de crianças ou se tornando prostitutas.
Mesmo na infância, as meninas são preparadas para se sentir mais responsáveis que os meninos pelas falhas nos relacionamentos. Muitas mulheres, maltratadas por seus pais como crianças, gastam suas vidas tentando curar homens maltratados, esperando a cada vez fazer a relação endireitar. As filhas de homens que as rejeitam acabam com homens que irão abusar delas. Os filhos de espancadores e mulherengos repetem o ciclo sem fim.
Frequentemente, os homens são ensinados a minimizar suas necessidades de conexão, a tentar parecer “independentes” e “autônomos”. Eles pagam um alto preço por isso. Terence Real e outros autores descreveram a terrível depressão sem nome que aflige muitos homens. O ambiente cultural é apenas uma parte da causa disto, naturalmente, e a publicidade é apenas uma parte deste ambiente. Mas, é uma parte poderosa. A publicidade, especialmente a publicidade de produtos viciantes, geralmente, encoraja os homens a se manter desconectados, a serem durões e solitários, começando como crianças ou mesmo bebês. “Tá falando comigo?” pergunta um bebê com uma tatuagem de uma Harley-Davidson em uma publicidade da Pepsi. A publicidade nos adverte para não nos metermos com Joey ou “ele irá rachar a nossa cabeça”. Certamente, isto é supostamente engraçado e bonitinho, mas, de fato, é bastante triste quando pensamos quantos meninos de verdade são encorajados a ser assim, frequentemente, com conseqüências trágicas para eles mesmos e para suas futuras parceiras e crianças.
“Você alguma vez viu um homem adulto chorar?” pergunta uma arrepiante publicidade de whisky, como se a única coisa pela qual um homem adulto pudesse chorar fosse por whisky derramado. A cerveja Miller usa a mesma idéia em um comercial, mostrando um rapaz entediado apanhado em um filme francês com mulheres soluçando e que também é levado às lágrimas somente quando sua garrafa de cerveja rola entre os assentos e se espatifa em pedaços. Por certo uma piada, mas não tão engraçada, dado que meninos envergonhados por chorar frequentemente crescem como homens que temem sentir demais qualquer coisa, exceto raiva.
Frequentemente, as mulheres usam álcool e outras drogas para lidar com a dor e o desapontamento de relações infelizes ou abusivas com estes homens. Médicos têm dado tranqüilizantes a milhões de mulheres para ajudá-las a lidar com casamentos que deveriam ter se dissolvido. Inumeráveis mulheres espancadas bebem ou fumam em uma equivocada tentativa de lidar com seu desespero e terror. Muitas outras mulheres usam comida, álcool ou cigarros para entorpecer os sentimentos de solidão que destroem suas almas em relacionamentos com homens que nunca aprenderam a ter intimidade, a se conectar profundamente com outro ser humano (o que, certamente, não quer dizer que todas as mulheres saibam ter intimidade, mas a maioria delas foi socializada para valorizar a intimidade e para se culpar se ela está ausente em seus relacionamentos).
Em seu estudo de mulheres fumantes, a pesquisadora canadense Lorraine Greaves descobriu que algumas mulheres vêem seus cigarros como parceiros passivos e reconfortantes. Elas gostam de como seus cigarros estão sob seu controle, que elas podem tê-los sempre que elas os queiram. Greaves descobriu que isto é particularmente verdadeiro para mulheres que sofreram abuso. Há tão pouca segurança e previsibilidade em suas vidas que a constância de seus cigarros torna-se muito importante. Naturalmente, a ironia é que o cigarro acaba controlando a fumante. E que a maior parte dos vícios torna quase impossível, para as mulheres, deixar relações abusivas e mais difícil resolver os traumas da infância. Somente na convalescença podemos acertar contas com o abuso e fazer conexões que curam em vez de ferir.
“Bem me quer, mal me quer”, diz uma publicidade mostrando uma margarida e um maço de cigarros. “Mas uma coisa é certa. Carlton tem os mais baixos teores.” Você não pode confiar nos homens, mas você pode confiar em seus cigarros. Enquanto isso, uma publicidade dos cigarros Briones mostra um homem em uma sacada fumando um charuto enquanto uma mulher enfurecida bem abaixo olha para ele. O texto diz: “Ele não argumenta. Ele não responde. Ele não tem opinião.” Parece que a mulher precisa de um cigarro.
“Até que eu encontre um homem de verdade, eu aceitarei um cigarro de verdade”, declara uma mulher com aparência de durona em uma publicidade de cigarro. À primeira vista, isto parece ser sobre sexo, naturalmente – o homem de verdade sendo o garanhão, aquele que está no controle. Uma outra forma de ler a situação, entretanto, é pensar o homem de verdade como aquele que é gentil, protetor e carinhoso. A mulher que nunca aprendeu a pensar nos homens deste modo, que apenas foi explorada pelos homens, de fato, estará propensa a aceitar um cigarro ou uma bebida no lugar dele. Ela também estará propensa a desenvolver uma aparência de dureza para se auto-proteger. Nem tudo que os publicitários fazem é intencional, mas eles de fato sabem o que estão fazendo quando eles oferecem cigarros – álcool e comida – para as mulheres como um meio de lidar com a raiva e o desapontamento nos relacionamentos.
Os vícios podem também ser vistos como uma tentativa de manter a conexão diante de uma freqüente e violenta desconexão. Não buscamos álcool, cigarros e comida simplesmente para anestesiar a dor, mas também na tentativa de manter algum tipo de relacionamento, mesmo se este é um relacionamento com a própria coisa que vai nos destruir (um padrão familiar para aqueles que foram abusados quando crianças). Como diz a analista junguiana Marian Woodman: “um vício reencena uma relação traumatizada com o corpo”.
Não nos tornamos viciados porque somos autodestrutivos. E não desenvolvemos problemas alimentares por somos fúteis ou obcecados com nossa aparência. A maior parte dos vícios começa como estratégia de sobrevivência – estratégias lógicas, criativas e mesmo brilhantes. No começo, estamos tentando nos poupar, possibilitar continuar vivendo apesar de tudo o que sabemos (mesmo que apenas inconscientemente). No começo, o álcool, outras drogas e substâncias fazem com que nos sintamos bem. No final, o vício apenas aprofunda nosso desespero e nossa vergonha. Quando isto acontece, no entanto, estamos muito fundo na negação para admitirmos.
A maioria dos viciados sente-se envergonhado muito antes de se tornar viciado. Abuso na infância faz todas as pessoas, meninos e meninas, se sentirem envergonhadas de si mesmas. O único modo de uma criança fazer sentido do abuso é pela crença de que ele ou ela o mereceram. Isto leva a um sentimento terrível de falta de valor, vergonha e raiva contra si mesmo. Torna-se necessário criar um falso eu para enfrentar o mundo. R. D. Laing escreveu brilhantemente sobre este fenômeno em seu livro clássico O eu dividido. Falando sobre o que ele chama o “eu desencarnado”, ele diz:
“Nesta posição, o indivíduo experiencia seu eu como estando mais ou menos divorciado ou separado de seu corpo. O corpo é sentido mais como um objeto entre outros objetos no mundo do que como o núcleo do próprio ser individual. Em vez de ser o núcleo de seu verdadeiro eu, o corpo é sentido como o núcleo de um eu falso, ao qual um separado, desencarnado, ‘interno’, ‘verdadeiro’ eu observa com ternura, divertimento ou ódio dependendo do caso.”
O espaço entre o eu falso e o eu real é insuportavelmente dolorido. Ninguém precisa ser um viciado para experimentar isto. Muitos críticos sociais, tais como Jeremy Iggers e Christopher Lasch, afirmam que todos nós, não apenas aqueles que são viciados ou que experienciaram abuso na infância, sofremos em uma maior ou menor extensão de um sentimento de vazio. Nossa cultura capitalista encoraja isto porque pessoas que se sentem vazias são excelentes consumidoras. Quanto mais vazios nos sentimos, mais tendemos a nos voltar para produtos, especialmente para os produtos que viciam, para nos preencher, para nos sentirmos inteiros.
Nós também vivemos em uma cultura em que é difícil não se sentir aprisionado em um falso eu, não sentir que nosso corpo é simplesmente um “objeto entre outros objetos no mundo”. Isto é especialmente verdadeiro para as mulheres, dado que nossos corpos são rotineiramente usados como objetos para vender todo tipo imaginável de produto, de motoserras a chicletes. Isto afeta a todos nós – mas como isto não traumatizaria novamente as pessoas que foram tratadas como objetos na infância?
Em sua coletânea Porque elas quiseram: estórias, Mary Gaitskill descreve um painel em que:
“Os olhos da modelo estão fixos, feridos e carentes. Ao mesmo tempo, seus olhos estão vazios. Seu corpo era magro, quase morto de fome, dando a sua beleza delicada uma estranha sensualidade de desejo insatisfeito. A fotografia assomava-se sobre a labuta dos lojistas como um totem da patologia sexualizada, uma irritante visão conjunta de sentimentos e falta de sentimentos. Era uma foto feita para pessoas que não suportam sentir e ainda assim precisam sentir (itálicos de Jean Kilbourne). Era uma foto feita por pessoas sofisticadas o bastante para publicamente transformar em fetiche seus problemas. Era uma publicidade muito boa para um produto chamado Obsession (Obsessão).
Muitas publicidades mostram apenas uma parte de um corpo de mulher – um “traseiro”, um torso sem cabeça. Uma publicidade para um servidor de internet mostra um mulher se inclinando. O texto diz, “Sua bunda. Praticamente uma fixação. Você a olha no espelho. Você a exercita. Você a veste, assim ela parece bem. Você a belisca para firmá-la, como um melão. Como podemos ajudar a melhorá-la? Entre no site e descubra.” Imagine – a parte do corpo de alguém é referida como um objeto separado, “como um melão.” Quão difícil é se sentir “encarnado” em tal mundo. Sem dúvida as pesquisas continuam descobrindo que muitas mulheres estão deprimidas pela exposição às publicidades e revistas femininas.
Podemos não estar conscientes disto, mas somos afetados. Tenho estudado estas questões por décadas e ainda me sinto péssima quase todas as vezes que leio uma revista de moda. Minha barriga está muito redonda (desde que dei à luz minha filha), minha pele marcada por manchas de sol e rugas, meus dentes não são suficientemente brancos, minhas unhas não são perfeitas. É fácil escrever sobre isto como futilidade trivial, mas seu impacto pode ser profundo e sério. Isto torna difícil para uma mulher sentir-se segura em seu corpo e, portanto, no mundo.
Marianne Apostolides, uma jovem mulher em convalescença de anorexia e bulimia, escreveu de sua experiência:
“Eu olhava no espelho e via braços flácidos, quadris gordos e barriga redonda. Eu me via parte por parte. Eu não via as conexões. Eu não via uma forma composta de curvas e linhas retas, de tecido macio e músculos fortes. Eu não me via. Minha imagem corporal refletia minha auto-imagem. Eu odiava meu corpo porque eu me odiava, eu duvidava de meu corpo porque eu duvidava de mim, eu estava brava com meu corpo porque eu estava brava comigo.”
É quase impossível imaginar o que nossa cultura popular pareceria se os corpos das mulheres não fossem objetificados e desmembrados. Estamos tão acostumados a isto que é duro de acreditar que nem sempre foi assim. De fato, as imagens erotizadas de mulheres tem feito parte do cenário cultural, fora do mundo da pornografia e dos clubes de sexo, apenas nos últimos cinqüenta anos, mais ou menos. É verdade que, na arte, houve imagens eróticas de mulheres por séculos, mas a tecnologia de massa tem tornado possível que estas imagens nos rodeiem constantemente. Diferentemente da arte, a publicidade sempre atrela estas imagens a produtos. O ponto não é despertar o desejo pela mulher, mas despertar o desejo pelo produto. Robert Schultz descreve estas imagens como “parques e locais turísticos espalhados, pequenos retiros para a imaginação masculina, golpes para o ego e ganchos para o comércio”.
Tenho falado sobre a exploração das mulheres na publicidade desde o final dos anos 1960 e este foi o tema de meu filme de 1979 Killing Us Softly: Advertising’s Image of Women (Matando-nos suavemente: as imagens das mulheres na publicidade). Certamente, isto não é nenhuma novidade. Entretanto, isto está mais extremo e disseminado do que nunca. Os corpos das mulheres não são apenas usados para atrair a atenção para o produto de maneiras crescentemente absurdas, como quando uma mulher nua é usada para vender um relógio ou seios são usados para vender linha de pesca, mas cada vez mais o corpo da mulher funde-se com o produto, como na publicidade do Sak. Esta objetificação esta relacionada com o vício e abuso de substâncias de maneiras complexas e que não têm sido exploradas.
Está tornando-se claro que esta objetificação tem conseqüências, uma das quais é o efeito que ela tem sobre a sexualidade e o desejo. O sexo na publicidade e na mídia é frequentemente criticado de uma perspectiva puritana – há demais dele, isto é tão descarado, isto encoraja as crianças a serem promíscuas e assim por diante. Mas, o sexo na publicidade tem muito mais relação com a sua trivialização do que com a sua promoção, com narcisismo do que com promiscuidade, com consumir do que com conectar. O problema não é que ele seja pecaminoso, mas que ele seja artificial e cínico.
As imagens sexuais na publicidade e em toda a mídia definem o que é sexy e, mais importante, quem é sexy. Para começar, na publicidade e na mídia de massa, o sexo é quase que inteiramente heterossexista – sexo lésbico, gay ou bissexual raramente está sequer implícito na mídia de massa (afora a ocasional fantasia masculina de lesbianismo com duas belas mulheres esperando pelo “Sr. Pinto”). Estamos rodeados por imagens de casais jovens, belos e heterossexuais, com corpos duros e perfeitos fazendo sexo. As mulheres são retratadas como sexualmente desejáveis somente se elas são jovens, magras, cuidadosamente arrumadas e refinadas, maquiadas, depiladas, perfumadas – tornadas quase que não eróticas, de fato – e os homens são condicionados a procurar estas parceiras e a se sentirem desapontados se falham nesta busca.
Nunca vemos imagens eróticas de pessoas idosas, pessoas imperfeitas, pessoas com deficiências. Os deuses fazem sexo, o resto de nós observa – e julga nossa própria vida sexual imperfeita com a fantasia do constante desejo e plenitude sexual retratada na mídia. Em larga medida, as imagens definem a desejabilidade – a nossa própria e a dos outros. Nunca podemos avaliar. Inevitavelmente, isto afeta nossa auto-imagem e radicalmente distorce a realidade. “Você tem o direito de se manter sexy”, diz uma publicidade mostrando uma jovem e bela mulher, com suas pernas abertas, mas o texto subentendido é “somente se você se parecer com isto”. E ela é um objeto – acessível, exposto, essencialmente passivo. Ela tem o direito de se manter sexy, mas não o direito de ser ativamente sexual.
Da mesma forma que, para as meninas e mulheres, por meio da bebida e do cigarro, é oferecida uma espécie de desafio substituto que interfere com a verdadeira rebelião, nos oferecem uma pseudo-sexualidade, uma mística sexual, que torna muito mais difícil descobrir nossa própria e única sexualidade. Quão sexy pode ser uma mulher que odeia seu próprio corpo? Ela pode agir de modo sexy, mas ela pode se sentir sexy? Quão completamente ela pode se entregar à paixão, se ela está preocupada que suas coxas são muito grossas ou seu estômago muito pronunciado, se ela não suporta ser vista no claro, ou se ela não gosta da fragrância de seus genitais?
No mundo da publicidade, somente pessoas jovens fazem sexo. Não somente as mulheres jovens que são valorizadas por sua sexualidade, mas o resto de nós termina em uma cultura aprisionada na adolescência, cercados por fantasias românticas e sexuais de adolescentes, uma cultura que idealiza as próprias coisas que tornam impossível a intimidade real – gratificação impulsiva, narcisismo, distância e desconexão, romantismo e juventude eterna. Na publicidade, sexo trata de um constante estado de desejo e excitação – nunca de intimidade, fidelidade ou compromisso. Isto não apenas torna impossível a intimidade – isto erode o desejo real. A busca sem fim da paixão é alimentada por um sentimento de morte interna, de vazio – e isto está destinado ao fracasso, como qualquer vício. Inevitavelmente, a paixão diminui e estamos novamente sós, vazios.
Quando pensamos a respeito disto, percebemos que, nas publicidades, as pessoas não são sexy por algo unicamente seu. Elas não têm histórias pessoais. A maioria delas se parece e elas são intercambiáveis. Elas raramente se olham. “O único lado negativo das mulheres convidadas a ficar para o café da manhã é que elas saem com suas melhores camisas”, diz uma publicidade mostrando um homem se vestindo. Em suas costas, está uma jovem mulher, cobrindo-se como se estivesse embaraçada. Nas publicidades, pessoas como estas não são amantes – elas são usuárias e usadas. Elas são sexy por causa do produto que usam. O jeans, o perfume, o carro, são sexy em si e por si mesmos. A resposta para a questão colocada por uma publicidade, o que atrai? é o perfume que está sendo anunciado, o que significa que estes parceiros em particular são irrelevantes. Eles poderiam facilmente ser quaisquer outros que estivessem usando Jovan musk. Publicidades informam-nos até mesmo que “Cashmere é mais sexy do que pele!” Frequentemente, as pessoas nas publicidades são lúgubres – não há humor, nenhuma peculiaridade, nenhuma individualidade que defina o realmente erótico.
Embora a venda sexual, aberta ou subliminar, seja uma jogada fervorosa na maior parte das publicidades, retratos do sexo como uma importante e profunda atividade humana são notavelmente ausentes. É um sexo frio e estranhamente sem paixão que nos cerca. Um sentimento de alegria também está ausente; geralmente, as modelos parecem hostis ou entediadas. Sexo apaixonado é uma maneira pela qual podemos experimentar o oceânico, a transcendência de nossas próprias fronteiras. Mas isto só pode ocorrer entre sujeitos, não objetos. Certamente, sexo não pode e não tem de ser sempre sagrado e transcendente, mas é trágico para uma cultura quando esta possibilidade diminui ou desaparece. Como a psicóloga Linda Pollock afirma, o prazer sexual é significativamente mais importante e, ao mesmo tempo, significativamente menos importante do que sustenta nossa cultura.
A noção de que a atratividade sexual vem de fora mais do que do interior é uma das mensagens mais prejudiciais das publicidades. A atratividade real tem relação com paixão pela vida, individualidade, singularidade, vitalidade. Ela não tem nenhuma relação com produtos ou com os entediados modelos de aparência perfeita que se abraçam ao nosso redor. Se for verdadeira a definição de erótico de Jeremy Iggers como um “elevado senso de vivacidade”, então certamente, em um mundo no qual as pessoas belas, frequentemente, parecem mais mortas do que vivas, são as publicidades de carros as que mais prometem uma experiência erótica. Nós vivemos em uma cultura maníaca e saturada de sexo, mas estranhamente não erótica.
Constantemente, a publicidade confunde sexualidade real com narcisismo. Modelos idênticos desfilam sozinhos através dos comerciais, acariciando suas próprias peles macias, abraçando e acariciando seus corpos, balançando suas longas crinas sedosas, sensualmente se banhando e aplicando loções e talcos e, então, admirando-se longamente no espelho. Estamos sujeitos a um bom bloqueio de mensagens informando-nos que tudo o que importa é o imediato atendimento de nossas necessidades e desejos. “Somos hedonistas e queremos nos sentir bem”, declara uma publicidade da Nike. Somos os heróis de todas as publicidades. “Hoje, você merece uma pausa”. “Go for it”. “Entrando no Lago Willow. População: um. Você.”
“Uma celebração de risos... amor... e intensa felicidade”, diz uma publicidade do perfume Amarige. Mas, tudo o que vemos é uma mulher que parece estar no meio do orgasmo, acariciando sua própria garganta. Não precisamos mais de parceiros. Esta é a desconexão perfeita.
Isto foi levado ainda mais longe em algumas publicidades recentes onde as modelos estão beijando a si mesmas. A super modelo Linda Evangelista aparece em uma dessas publicidades como uma mulher e um homem. O travesti RuPaul é mostrado em outro, no qual RuPaul o rapaz aconchega-se a RuPaul a garota. Sem dúvida, ela está usando o perfume “Narcisse” e ele “Egoiste”.
Esta atitude adolescente em relação ao sexo é ainda mais reforçada e refletida por todas as publicidades (e comédias e filmes) que transformam o sexo em uma piada suja. Inumeráveis publicidades usam termos de duplo sentido como os trotistas, tais como “mantemos isto no ar por mais tempo” (para uma estação de rádio), “sua habilidade para marcar acaba de ser aumentada” (para um vídeo game), e “você nunca esquece sua primeira vez” (para álcool e para uma loja de descontos). Em uma revista inglesa, uma publicidade de sapatos dirigida a jovens mostrava uma foto de uma loira no clímax da paixão (ou morta – é difícil de dizer) e o texto: “No meio do caminho para o Monte Carolina, percebi que havia esquecido minha roupa de segurança. Fiz uma descida rápida.” Uma publicidade norte-americana de cruzeiros marítimos pergunta: “qual a sua idéia de diversão?” Uma linda mulher lentamente responde: “lamber o sal da margarita do meu marido”. Quando as piadas sexuais são usadas para vender tudo de arroz a mata-barata, de carros a carpetes, é difícil de lembrar que o sexo pode unir duas almas, pode inspirar respeito. Individualmente, estas publicidades são suficientemente inofensivas, às vezes até engraçadas, mas o efeito cumulativo é degradar e desvalorizar o sexo.
Não quero dizer, nem por um minuto, que o sexo tenha que ser romântico, suave, fino, domesticado. Inevitavelmente, nos objetificamos e objetificamos aos outros sexualmente, o que está bem desde que haja uma reciprocidade, desde que todos nós possamos ser sujeitos também e não meros objetos. Como diz Ann Snitow, “o perigo da objetificação e da fragmentação depende do contexto... A campanha anti-pornografia introduz metas equivocadas em nossa luta quando insinua que em um mundo feminista nunca objetificaríamos ninguém, nunca tomaríamos a parte pelo todo, nunca nos abandonaríamos ao sem sentido ou as intensidades dos sentimentos que ligam sexo com infância, morte, aos terrores e prazeres do oceânico”. Longe de abandonar o erótico, necessitamos resgatá-lo da cultura comercial que o monopoliza.
Talvez mais importante, a publicidade e a cultura popular definem a conexão humana quase que inteiramente em termos de sexo, assim enfatiza excessivamente a importância relativa do sexo em nossas vidas (e casamentos) e subestima outras coisas (amizade, lealdade, diversão, o amor das crianças, a comunidade). De acordo com o poeta Robert Hans, a arte do produtor de pornografia “consiste na ausência de escala”. Não há senso de escala na publicidade, nenhum senso do que é mais ou menos importante. A vida é rica e variada, com tantos aspectos que são importantes e significativos – aspectos políticos, profissionais, educacionais, criativos, artísticos, religiosos e espirituais. Certamente, o sexo é um desses aspectos importantes, mas como diz Sut Jhally, “nunca na história, a iconografia de uma cultura foi tão obcecada ou possuída por questões de gênero e sexualidade.” As revistas masculinas estão repletas de imagens de mulheres perfeitas (as quais também cobrem nossas estradas e preenchem as telas de TV). As revistas femininas estão cheias de artigos desesperados sobre como manter nossos homens sexualmente felizes – instruções explícitas para felação, recomendações para tentar novas coisas como sexo anal.
As revistas para mulheres solteiras, como a Cosmopolitan (Nova), são arriscadas de tirar o fôlego (“Transforme-o em um selvagem na cama: os surpreendentes locais que ele quer que você toque”, “Seja o melhor sexo da vida dele” e “Classificada como X: lições de sexo de uma madame de Paris” são típicas estórias de capa). As revistas para mães e esposas são mais instrutivas (como ter rapidinhas românticas, reviva sua vida sexual com um final de semana no Caribe). Quando leio estas revistas, quase posso sentir a fadiga entre as linhas – oh meu Deus, além de trabalhar em período integral e do tempo com qualidade para as crianças, lembrando do aniversário de todos e sendo responsável por todo o planejamento de nossas vidas e por todo o trabalho emocional do casamento, também tenho que agendar interlúdios apaixonados e colocar uma cinta-liga, meias e aprender a últimas posições sexuais. Sem dúvida, preciso de uma bebida, de um cigarro ou de uma taça de sorvete.
Talvez não surpreenda, ao mesmo tempo em que estamos cercados por estas imagens e exaltações, muitos terapeutas e conselheiros matrimoniais dizem que, atualmente, uma das principais reclamações de muitas pessoas, casadas e solteiras, é a falta de desejo. De acordo com um terapeuta sexual, “o tédio sexual é uma disfunção epidêmica deste país.”
Um estudo publicado em 1999 no Journal of the American Medical Association (JAMA) (Revista da Sociedade Norte-Americana de Medicina) descobriu que a disfunção sexual (falta de interesse ou falta de contentamento com o sexo, ansiedade durante a performance ou incapacidade para alcançar ou para manter o orgasmo) é uma importante preocupação da saúde pública, afetando 43% das mulheres e 31% dos homens. Considerado como a mais ampla investigação sobre a vida sexual dos norte-americanos desde o Relatório Kinsey do final dos anos 1940, surpreendentemente, o estudo descobriu que a taxa de problemas sexuais, fora a impotência, não está fortemente correlacionado com a idade. Mais de uma em cada quatro mulheres com idade entre 18 e 21 anos disseram que elas não acham sexo prazeroso e mulheres jovens (com idades entre 18 e 39 anos) tendiam mais a relatar falta de interesse em sexo, ansiedade sobre performance, dor durante o intercurso ou incapacidade para atingir o orgasmo do que as mulheres mais velhas (entre 40 e 59 anos).
Sem surpresa, vítimas de abuso sexual na infância tinham taxas muito mais altas de disfunção sexual, vítimas masculinas tendiam três vezes mais a experimentar disfunção eréctil e vítimas femininas tendiam duas vezes mais a ter desordens de excitação. “Atos sexuais traumáticos continuam a exercer efeitos profundos no funcionamento sexual, alguns efeitos durando muitos anos depois da ocorrência do evento original”, escreveram os autores do estudo.
Mas, mesmo aqueles que não experienciaram traumas, frequentemente, são infelizes e insatisfeitos com suas vidas sexuais. Outro grande levantamento descobriu que um terço das mulheres e um sexto dos homens que responderam à pesquisa não se interessavam por sexo. Um quinto das mulheres e um décimo dos homens foram tão longe ao ponto de dizer que o sexo não lhes dava prazer. Embora um publicitário tenha feito piada de tudo isso em uma publicidade afirmando que “37% das mulheres prefere comprar sapatos a sexo”, decididamente, isto não tem graça para aqueles que estão aflitos. Disfunção sexual está associada com infelicidade e baixa qualidade de vida, especialmente para as mulheres. Em um mar de imagens sedutoras, muitas pessoas estão morrendo de sede, secando. Pode ser que estas pessoas sejam perfeitamente “normais”, mas em uma cultura excessivamente quente, eles não têm idéia do que seja o desejo normal. Não somos estúpidos. Sabemos que lençóis não nos levarão ao sexo excelente e que um cruzeiro marítimo não ressuscitará um casamento moribundo. No entanto, é difícil acreditar que outras pessoas não estão se divertindo mais e que não há algo de errado conosco.
O colunista Dan Savage pensa que o modo como falamos sobre sexo contribui para esta infelicidade e destrói muitos bons relacionamentos. “Quando falamos sobre tentar baixar a taxa de divórcios” diz ele, “talvez devamos fazer isso criando uma sociedade na qual não insistamos que o relacionamento terminou quando a paixão sexual acaba”. Raymond C. Rosen, um dos autores do estudo publicado no JAMA, disse que, muito frequentemente, as percepções das pessoas de como suas vidas sexuais deveriam ser são moldadas por artigos em revistas que sugerem que todos os demais estão tendo excelente sexo todo o tempo. “Como cientista, isto me deixa de cabelos em pé”, ele disse. “Isso é terrível”.
Talvez estas imagens sexy tenham o mesmo efeito das imagens violentas: levem mais à falta de sensibilidade do que à imitação. Como diz Normar Cousins:

“O problema com esta pornografia aberta e ampla não é que ela corrompa, mas que ela dessensibiliza; não que ela liberte as paixões; mas que ela aleija as emoções; não que ela encoraje uma atitude madura, mas que ela é uma reversão para obsessões infantis; não que ela remova as vendas, mas que ela distorça a vista. A destreza é proclamada mas o amor é negado. O que temos não é liberação mas desumanização.

Uma edição recente de Sky, uma revista visando pessoas jovens, continha a seguinte carta na coluna de conselhos: “meu problema é que não gosto mais de sexo. Sou um rapaz viril de 22 anos. Regularmente, fazia sexo com minha namorada, mas não tenho mais prazer... Há alguma coisa que eu esteja fazendo errado?” O conselheiro respondeu: “atire no ar, garoto? Você apanhou o problema sexual dos anos 1990: a apatia pélvica... Realmente, tudo o que está acontecendo com você e seu melhor amigo careca de 22 anos é que vocês dois esqueceram que há outro ser humano escravizado na distante ponta de sua tábua. Lembra-se, aquela pessoa com voz aguda e batom?” Esta troca foi uma irônica e inconsciente contraparte para todas as publicidades sexy da edição. E quão desumanizador é referir-se a uma mulher, a namorada de alguém, como “aquela pessoa com voz aguda e batom”.
Enquanto isso, Mademoiselle oferecia este conselho para uma jovem mulher cujos braços ficavam doloridos enquanto ela satisfazia seus parceiros: “Sua melhor aposta – antes de olhar para o relógio de cabeceira ou desenvolver os braços de Martina Navratilova – é fazer com que ele te dê uma mão.”
Em 1997, a NBC mostrou uma estória sobre alguns estudantes universitários – homens e mulheres – que regularmente tinham uma prática de juntos se embebedar e então fazer sexo com quem quer que seja que estivesse mais próximo. De acordo com um estudante, esta era uma excelente forma de satisfazer suas necessidades sexuais rapidamente sem a “demorada” chateação de realmente sair e conhecer alguém.
Em um mundo cheio de cadeias de fast-food e publicidade de tralha para comer, deliberadamente, muitas pessoas estão passando fome ou se empanturrando para esquecer. Consumindo comida para a qual não temos apetite real, nunca estamos satisfeitos e perdemos nossa capacidade de avaliar nossa própria fome. De modo similar, a barreira constante de imagens sexuais e corpos perfeitos oferecidos para nós como comida descartável (ou talvez picolés) deixa-nos sexualmente anestesiados e fora de contato com o nosso próprio desejo. Hoje em dia, podemos ter quase que qualquer comida típica em nossas casas e também temos mais opções sexuais do que antes em termos de parceiros e técnicas. Mas quando comer está divorciado da fome e apetite e sexo está divorciado do desejo e dos relacionamentos, ambas as experiências tornam-se onanistas, solitárias e não nos preenchem.
Naturalmente, todas essas imagens sexuais não pretendem nos vender sexo – elas pretendem nos levar às compras. O desejo que elas querem inculcar não é por orgasmos, mas por mais quinquilharias. Esta é a intenção dos publicitários – mas uma conseqüência não intencional é o efeito que estas imagens têm sobre o desejo sexual real e as vidas reais. Quando o sexo é uma mercadoria, há sempre um negócio melhor. O naufrágio que se segue quando as pessoas tentam imitar o tipo de sexualidade glorificada nas publicidades e na cultura popular está em toda parte, de minha casa à Casa Branca. Muitos que escolheram não agir dessa maneira sexualmente impulsiva, apesar disso, acabam achando que alguma coisa está errada com eles, com seus relacionamentos defeituosos, comuns e demasiadamente humanos.
Assim, todas essas imagens sexuais descaradas que nos cercam, de fato, tendem mais a nos levar para a desconexão do que para a conexão. O abuso de substâncias e o vício, especialmente para mulheres, frequentemente, é uma resposta para a desconexão. A publicidade não causa a desconexão, naturalmente, do mesmo modo que ela não causa o vício. Mas, ela de fato objetifica os corpos das mulheres, tornando mais difícil para as mulheres sentirem-se seguramente “encarnadas” e, assim, aumenta o sentimento de dissociação. Isto cria um clima no qual desconexão e dissociação são naturalizados, ou mesmo glorificados e eroticizados. Finalmente, ela oferece produtos que viciam – álcool, cigarros, comida – como uma forma para lidar com a dor que esta situação causa.
Longe de melhorar, a situação continua a piorar. Hoje em dia, estamos tão acostumados com as descaradas imagens sexuais que, constantemente, os publicitários precisam forçar ainda mais a barra para atrair nossa atenção, para atravessar a bagunça. Crescentemente, a fim de atrair nossa atenção pelo choque, eles emprestam imagens do mundo da pornografia – que é um mundo de violência, um mundo de completa desconexão.

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